USP/HCFMUSP - Hospital das Clínicas da FMUSP (SP) — Prova 2024
Homem de 52 anos refere surgimento de lesão há 4 meses, a qual é mostrada na imagem a seguir: A lesão apresenta crescimento, dor e sangramento, associada a perda de 5 kg no período e surgimento de linfonodomegalia endurecida e fixa em região submandibular direita. Paciente nega comorbidades e é tabagista (60 anos-maço). Foi realizada biópsia da lesão, com resultado de carcinoma de células escamosas. Sobre a lesão e seu tratamento recomendado, é correto afirmar:
Lesão em assoalho de boca + Tabagismo + Linfonodo fixo → CEC com provável metástase regional; conduta: Cirurgia + Esvaziamento.
O carcinoma de células escamosas (CEC) de assoalho de boca é fortemente associado ao tabagismo. O manejo padrão envolve a ressecção com margens livres e o esvaziamento cervical devido ao alto risco de metástases linfonodais.
O carcinoma de células escamosas (CEC) representa mais de 90% das neoplasias malignas da cavidade oral. O assoalho da boca é um dos sítios mais comuns, frequentemente diagnosticado em homens tabagistas e etilistas na quinta ou sexta década de vida. A apresentação clínica típica envolve úlceras persistentes, endurecidas, que podem sangrar ou causar dor local. A presença de linfonodomegalia endurecida e fixa sugere doença avançada regionalmente (estádio N2 ou N3), o que impacta severamente o prognóstico e exige tratamento agressivo. O tratamento padrão-ouro para o CEC de cavidade oral ressecável é a cirurgia. Esta consiste na exérese da lesão primária com margens de segurança (idealmente > 1cm) e, na presença de linfonodos suspeitos, o esvaziamento cervical radical ou radical modificado. Diferente da orofaringe (base da língua e amígdalas), onde a quimiorradioterapia definitiva é uma opção frequente e o HPV desempenha papel central, o câncer de cavidade oral responde melhor à abordagem cirúrgica inicial, reservando-se a radioterapia e quimioterapia para o cenário adjuvante em casos de margens comprometidas ou extensão extracapsular linfonodal.
A principal via de disseminação do carcinoma de células escamosas (CEC) de assoalho de boca é a linfática, drenando preferencialmente para os níveis I, II e III do pescoço. Devido à rica rede linfática da região sublingual e submandibular, metástases ocultas são comuns mesmo em estágios clínicos iniciais (cN0). Por isso, o esvaziamento cervical eletivo ou terapêutico é frequentemente indicado no tratamento cirúrgico primário. A disseminação hematogênica é menos comum no diagnóstico inicial, ocorrendo geralmente em casos avançados para pulmões, fígado ou ossos. O controle regional é o principal determinante da sobrevida global nesses pacientes.
O tabagismo é o principal fator etiológico do CEC de cavidade oral, agindo de forma sinérgica com o álcool. Pacientes tabagistas pesados, como o do caso (60 anos-maço), apresentam maior risco de segundas neoplasias primárias no trato aerodigestivo superior e complicações pós-operatórias, como fístulas e deiscências de sutura, devido à má vascularização tecidual e hipóxia crônica. Além disso, o tabagismo contínuo durante a radioterapia pode reduzir a eficácia do tratamento e aumentar a toxicidade mucosa. A cessação tabágica é fundamental para melhorar o prognóstico e reduzir a recorrência local.
O esvaziamento cervical está indicado sempre que houver evidência clínica ou radiológica de metástase linfonodal (pescoço N+). No entanto, em pacientes com pescoço clinicamente negativo (cN0), o esvaziamento eletivo é recomendado se o risco de metástase oculta for superior a 20%, o que geralmente ocorre em lesões com profundidade de invasão (DOI) maior que 4 mm. No caso de assoalho de boca, devido à proximidade com os linfonodos submandibulares e submentonianos, a abordagem cervical é quase mandatória para garantir o controle oncológico adequado e o estadiamento patológico preciso.
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