Santa Casa de Belo Horizonte (MG) — Prova 2026
Idosa de 68 anos, acamada por sequelas de AVC isquêmico, faz uso de sonda vesical há três semanas. A equipe de enfermagem relata sonolência, porém sem alteração importante do basal da paciente. Nega febre, dor lombar ou sintomas urinários. Exame físico: PA 128x76 mmHg, FC 84 bpm, SatO₂ 96%, afebril. Abdome flácido, bexiga não palpável. Exame de urina: leveduras ao microscópio; urocultura com 105 UFC/mL de Candida albicans. Qual a conduta MAIS adequada?
Candidúria assintomática → Não tratar com antifúngicos; apenas trocar ou retirar a sonda.
A presença de Candida na urina de pacientes cateterizados geralmente indica colonização. O tratamento antifúngico só é indicado para pacientes sintomáticos, neutropênicos ou que serão submetidos a procedimentos urológicos.
A candidúria é um achado frequente em ambiente hospitalar, especialmente em Unidades de Terapia Intensiva e em pacientes com uso prolongado de antibióticos de amplo espectro ou dispositivos invasivos. A diferenciação entre contaminação, colonização e infecção verdadeira (cistite ou pielonefrite fúngica) é o maior desafio clínico. A fisiopatologia envolve a ascensão do fungo pelo trato urinário ou, menos frequentemente, via hematogênica (sugerindo candidíase disseminada). Em pacientes com sonda vesical, a formação de biofilme é o mecanismo central. O manejo foca na redução de fatores de risco: interrupção de antibióticos desnecessários, controle glicêmico e remoção de cateteres. Quando o tratamento é indicado, o fluconazol oral é a droga de escolha para espécies sensíveis devido à sua excelente excreção urinária na forma ativa.
O tratamento medicamentoso da candidúria é reservado para situações específicas onde o risco de disseminação hematogênica ou complicações locais é elevado. As principais indicações incluem: 1) Pacientes sintomáticos (disúria, dor suprapúbica, febre sem outro foco); 2) Pacientes neutropênicos ou gravemente imunossuprimidos; 3) Recém-nascidos de baixo peso; 4) Pacientes que serão submetidos a procedimentos urológicos invasivos (devido ao risco de bacteremia/fungemia induzida pelo procedimento). Fora desses cenários, a presença de Candida albicans ou outras espécies na urina, especialmente em pacientes com sonda vesical de demora, é considerada colonização e não requer terapia antifúngica sistêmica, conforme as diretrizes da IDSA (Infectious Diseases Society of America).
A troca ou, preferencialmente, a remoção da sonda vesical de demora é a intervenção inicial mais eficaz na candidúria assintomática. O cateter atua como um corpo estranho que facilita a formação de biofilme fúngico, protegendo as leveduras da resposta imune e de concentrações locais de substâncias antimicrobianas. Estudos demonstram que a simples troca do cateter pode resultar na eliminação da candidúria em até 20-40% dos casos sem a necessidade de qualquer droga antifúngica. Se a permanência da sonda for indispensável, a troca minimiza a carga fúngica aderida, mas a recorrência da colonização é comum enquanto o dispositivo estiver presente.
O tratamento indiscriminado de candidúria assintomática em idosos acamados ou residentes de instituições de longa permanência traz riscos significativos sem benefícios comprovados. O uso desnecessário de fluconazol ou anfotericina B contribui para a seleção de espécies de Candida não-albicans resistentes (como C. glabrata e C. krusei) e expõe o paciente a efeitos colaterais e interações medicamentosas. Em idosos com alterações cognitivas ou sequelas de AVC, como no caso clínico, sintomas inespecíficos como sonolência leve, sem febre ou instabilidade hemodinâmica, não devem ser automaticamente atribuídos à candidúria. A prioridade deve ser a higiene local, hidratação e reavaliação da necessidade do cateterismo vesical.
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