FAMENE - Faculdade de Medicina Nova Esperança (PB) — Prova 2026
Um lactente de 7 meses, previamente saudável e com calendário vacinal atualizado, é levado ao pronto atendimento com história de tosse, coriza e febre baixa há 3 dias. Nas últimas 24 horas evoluiu com piora da dispneia, recusa alimentar e dois episódios de vômitos após a tosse. No exame físico, apresenta-se irritado, hipocorado, com presença de tiragem subcostal intensa, batimento de asa nasal, gemido expiratório. FR: 64 irpm, FC: 168 bpm, SatO₂: 88% em ar ambiente. Ausculta pulmonar: sibilos difusos e estertores finos bilaterais. Com base no caso clínico, assinale a alternativa correta:
Lactente <2 anos + pródromos virais + 1º episódio de sibilância/estertores = Bronquiolite Viral Aguda.
A BVA é um diagnóstico clínico em lactentes com sinais de obstrução de vias aéreas inferiores; a gravidade é definida pelo esforço respiratório e hipoxemia, exigindo suporte hospitalar.
A Bronquiolite Viral Aguda (BVA) é a principal causa de internação hospitalar em lactentes menores de um ano, sendo o Vírus Sincicial Respiratório (VSR) o agente etiológico mais comum. A patogênese envolve a invasão viral do epitélio bronquiolar, resultando em inflamação, edema e acúmulo de debris celulares, o que leva a uma obstrução variável do fluxo aéreo. O diagnóstico é eminentemente clínico, baseado na história de infecção de vias aéreas superiores seguida de esforço respiratório e sibilância em crianças com menos de 24 meses. O manejo atual prioriza medidas de suporte, uma vez que intervenções farmacológicas como corticoides, nebulização com adrenalina ou solução salina hipertônica não demonstraram impacto consistente na história natural da doença. A oxigenoterapia é indicada quando a saturação cai abaixo de 90-92%, e a ventilação não invasiva (VNI) ou cateter nasal de alto fluxo (CNAF) podem ser necessários em casos de falência respiratória iminente. A prevenção, especialmente em grupos de risco, é feita com o anticorpo monoclonal palivizumabe durante os meses de maior circulação viral.
Os critérios de internação na bronquiolite viral aguda (BVA) baseiam-se principalmente na avaliação clínica da gravidade e na capacidade de manutenção da homeostase pelo lactente. Indicações absolutas incluem desconforto respiratório moderado a grave (tiragens subcostais, batimento de asa nasal, gemência), saturação de oxigênio persistentemente abaixo de 90-92% em ar ambiente, e sinais de desidratação ou incapacidade de manter a ingestão oral adequada (recusa alimentar >50%). Além disso, a presença de apneia, idade inferior a 3 meses, prematuridade extrema ou comorbidades como cardiopatias congênitas e doenças pulmonares crônicas elevam o risco de evolução desfavorável, justificando a vigilância hospitalar. O suporte oferecido no hospital foca em oxigenoterapia para manter a saturação alvo e hidratação venosa ou por sonda se necessário.
O uso de broncodilatadores, como o salbutamol, não é recomendado de forma rotineira na bronquiolite viral aguda porque a fisiopatologia da doença não é primariamente mediada por broncoespasmo muscular liso, mas sim por edema da mucosa, hipersecreção de muco e descamação epitelial que obstrui os bronquíolos. Estudos multicêntricos e metanálises demonstraram que o uso dessas medicações não reduz a taxa de internação nem o tempo de permanência hospitalar. Embora alguns protocolos permitam uma prova terapêutica em casos selecionados (especialmente se houver forte história familiar de atopia ou asma), a ausência de resposta clínica objetiva deve levar à suspensão imediata da droga para evitar efeitos colaterais como taquicardia e tremores, focando o tratamento no suporte clínico.
A diferenciação clínica pode ser desafiadora, mas alguns padrões auxiliam o diagnóstico. A bronquiolite viral aguda tipicamente inicia com pródromos de vias aéreas superiores (coriza, tosse, febre baixa) que evoluem para sibilância difusa e estertores finos em um lactente jovem no primeiro episódio. Já a pneumonia bacteriana costuma apresentar febre mais alta e persistente, estado geral mais comprometido (toxemia) e, na ausculta, pode haver sinais de consolidação localizada (redução do murmúrio vesicular ou sopro tubário) em vez de sibilância difusa. Radiologicamente, a BVA mostra hiperinsuflação e atelectasias laminares, enquanto a pneumonia exibe infiltrados lobares ou segmentares. Em casos de dúvida com instabilidade hemodinâmica, a investigação laboratorial e radiológica torna-se mandatória.
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