USP/HCFMUSP - Hospital das Clínicas da FMUSP (SP) — Prova 2023
Paciente de 2 meses, sexo masculino, foi admitido no pronto atendimento após mãe ter notado que ele estava com os lábios arroxeados. Na admissão, encontrava-se arresponsivo, com perda de tônus muscular e com respiração superficial e hipoxemia, tendo sido prontamente iniciadas ventilações assistidas. O paciente havia recebido as imunizações previstas no calendário vacinal há cerca de 5 horas e teve febre precedendo o quadro.Após cerca de 5 minutos de suporte ventilatório, o paciente apresentou recuperação da respiração e do tônus, não sendo necessária entubação orotraqueal. Ao exame de reavaliação, estava corado, hidratado, FC: 150 bpm, FR 36 irpm, PA 73x40 mmHg, pulsos presentes e simétricos, tempo de enchimento capilar de 2 segundos, com abertura ocular espontânea. Restante do exame clínico sem alterações.Com relação à investigação do evento apresentado, podemos afirmar que:
BRUE de baixo risco em lactante estável → observação e orientação, sem exames adicionais.
O BRUE substituiu o termo ALTE para descrever eventos súbitos e resolvidos em lactentes. Se o paciente é de baixo risco e o exame físico é normal, a investigação exaustiva é desnecessária.
O termo BRUE (Brief Resolved Unexplained Event) foi introduzido para substituir o antigo ALTE (Apparent Life-Threatening Event), trazendo critérios mais rigorosos de inclusão. A mudança visa reduzir a sobrecarga diagnóstica e hospitalizações desnecessárias em lactentes que apresentam eventos paroxísticos benignos. A fisiopatologia muitas vezes permanece indeterminada, mas a estabilidade clínica pós-evento é o principal preditor de bom prognóstico. No caso apresentado, a associação temporal com a vacinação e a febre pode sugerir um evento relacionado à resposta vacinal, mas a recuperação completa e o exame físico normal reforçam a classificação de baixo risco. Nestes casos, a propedêutica armada (líquor, imagem, EEG) não altera o desfecho clínico e aumenta custos e riscos iatrogênicos ao paciente.
Um BRUE é caracterizado por um episódio súbito, breve (menos de 1 minuto) e agora resolvido em um lactante com menos de 1 ano, apresentando pelo menos um dos seguintes: cianose ou palidez; respiração ausente, diminuída ou irregular; alteração marcada no tônus; ou alteração no nível de consciência. É um diagnóstico de exclusão, aplicado apenas quando não há explicação para o evento após anamnese e exame físico detalhados.
Para ser baixo risco, o lactante deve ter > 60 dias de vida, idade gestacional ≥ 32 semanas e idade pós-concepcional ≥ 45 semanas, ser o primeiro evento, ter duração < 1 minuto, não ter exigido RCP por profissional e não apresentar achados preocupantes na história ou exame físico.
A conduta preconizada pela Academia Americana de Pediatria (AAP) foca em evitar exames desnecessários. Recomenda-se educar os cuidadores sobre BRUE, oferecer treinamento de RCP e realizar uma observação clínica breve (1 a 4 horas). Não há indicação de internação, exames de imagem, EEG ou triagem laboratorial extensiva.
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