FMABC - Faculdade de Medicina do ABC Paulista (SP) — Prova 2018
Mulher de 67 anos, com sequela motora de acidente vascular encefálico hemorrágico, desenvolveu tumor pulmonar associado a tabagismo crônico. O estadiamento revela metástases ósseas. Foi submetida a tratamento quimioterápico e radioterápico, mas sem sucesso. Após 10 meses de tratamento, com a evolução do quadro, os oncologistas definiram que a sobrevida estimada da paciente seria inferior a seis meses. A paciente apresentava dores ósseas e dispneia em ar ambiente, tinha disfagia, principalmente para líquidos, emagrecimento de mais de 10% do peso inicial ao tratamento. A filha da paciente informou que queria que todas as medidas terapêuticas fossem administradas, não aceitando apenas o tratamento dos sintomas (paliativo). Você é o médico da paciente. Quais as condutas que adotaria neste caso em específico e justifique de forma clara e objetiva?
Paciente terminal com capacidade de discernimento: priorizar autonomia, informar riscos/benefícios, envolver equipe multidisciplinar.
Em pacientes com doença terminal e prognóstico reservado, a autonomia do paciente é primordial. É dever do médico, em conjunto com a equipe multidisciplinar, avaliar a capacidade de discernimento e, se presente, informar a paciente sobre sua condição, os riscos e benefícios das opções terapêuticas, incluindo os cuidados paliativos.
A situação apresentada ilustra um dilema ético comum na prática médica, especialmente em oncologia e cuidados de fim de vida. A paciente, com doença oncológica avançada e prognóstico reservado, tem uma família que deseja a manutenção de medidas terapêuticas agressivas, enquanto a equipe médica considera a transição para cuidados paliativos. A chave para a conduta correta reside no respeito à autonomia do paciente. A capacidade de discernimento é a habilidade de um indivíduo para tomar decisões informadas sobre sua própria saúde. Ela deve ser avaliada clinicamente e pode ser flutuante. Se a paciente for considerada capaz de discernir, sua vontade deve ser prioritária. A comunicação de más notícias e a discussão sobre o prognóstico e as opções de tratamento, incluindo os cuidados paliativos, devem ser feitas de forma clara, empática e honesta, envolvendo a equipe multidisciplinar. Os cuidados paliativos visam proporcionar qualidade de vida ao paciente e sua família diante de uma doença que ameaça a continuidade da vida, através da prevenção e alívio do sofrimento. Não se trata de 'desistir' do paciente, mas de focar no conforto e bem-estar. A conduta correta envolve informar a paciente sobre sua condição, os riscos e benefícios de continuar ou suspender tratamentos curativos, e apresentar os cuidados paliativos como uma opção de tratamento ativo e digno, permitindo que ela tome uma decisão informada.
A capacidade de discernimento envolve a habilidade de compreender as informações relevantes sobre a doença e o tratamento, apreciar as consequências de suas escolhas, raciocinar sobre as opções e comunicar uma escolha. É uma avaliação clínica complexa, muitas vezes multidisciplinar.
Em caso de conflito, a vontade do paciente capaz de discernir prevalece. É fundamental mediar a comunicação, explicar a situação à família e buscar um consenso, mas sempre respeitando a autonomia do paciente como princípio ético fundamental.
Os cuidados paliativos devem ser iniciados precocemente, idealmente desde o diagnóstico de uma doença grave e ameaçadora à vida, e não apenas na fase terminal. Eles visam melhorar a qualidade de vida do paciente e de seus familiares, abordando sintomas físicos, psicossociais e espirituais.
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