Atresia de Vias Biliares: Diagnóstico e Conduta Urgente

HOS/BOS - Hospital Oftalmológico de Sorocaba - Banco de Olhos (SP) — Prova 2026

Enunciado

Lactente de 25 dias, sexo masculino, é trazido ao pronto-socorro devido à persistência de icterícia desde alta da maternidade com 48 horas de vida. A mãe relata que as fezes estão mais claras do que as eliminadas na primeira semana de vida e que a urina tem apresentado coloração intensa, amarelada, desde o nascimento. O bebê encontra-se em aleitamento materno exclusivo, mas a mãe apresenta muitas dúvidas e insegurança sobre a amamentação exclusiva. A história gestacional e obstétrica foi sem alterações, com parto vaginal a termo e peso ao nascimento de 3.200 g. Ao exame, o lactente apresenta bom estado geral, peso de 3.650 g, icterícia em pele e escleróticas e fígado palpável a 2 cm do rebordo costal direito, com borda lisa e indolor. Não há esplenomegalia ou outros achados. Exames laboratoriais da emergência revelam bilirrubina total de 8,5 mg/dL (com 7,0 mg/dL de bilirrubina direta) e hemograma sem sinais de hemólise. Com base no quadro clínico apresentado, assinale a alternativa correta:

Alternativas

  1. A) Deve-se realizar um teste de exclusão do leite materno por um curto período de 48–72 horas, para melhorar o quadro provável de icterícia associada ao leite materno.
  2. B) Sugere-se tranquilizar a mãe sobre a evolução habitual da icterícia neonatal, estimulando os banhos de sol, além de verificar a técnica de amamentação, pois o quadro indica possibilidade de desidratação consequente das dificuldades na mamada.
  3. C) Deve-se solicitar investigação imediata com ultrassonografia abdominal e encaminhamento para serviço especializado para confirmar a suspeita de atresia de vias biliares, pois a cirurgia precoce é imprescindível para melhor prognóstico.
  4. D) Sugere-se a dosagem de G6PD, a re-checagem do teste do pezinho e a tipagem sanguínea da mãe e da criança; diante desses exames normais, o diagnóstico provável será de colestase neonatal idiopática.
  5. E) Deve-se internar a criança para realização de fototerapia e observação mais sistemática da amamentação e aceitação alimentar dessa criança, pois a evolução ponderal e o estado de hidratação são preocupantes.

Pérola Clínica

Icterícia colestática (BD > 1,0 mg/dL) após 2 semanas → Investigar Atresia de Vias Biliares URGENTE.

Resumo-Chave

A atresia de vias biliares é uma emergência cirúrgica pediátrica; o diagnóstico precoce e a realização da portoenterostomia de Kasai antes dos 60 dias de vida são cruciais para o sucesso da drenagem biliar.

Contexto Educacional

A atresia de vias biliares (AVB) é a principal causa de transplante hepático na infância. Caracteriza-se por um processo inflamatório idiopático que leva à obliteração da árvore biliar extra-hepática. O quadro clínico típico é de um lactente a termo, com peso adequado, que desenvolve icterícia colestática nas primeiras semanas de vida. A diferenciação entre causas médicas (como hepatite neonatal) e cirúrgicas (AVB) é prioritária. O manejo envolve suporte nutricional com triglicerídeos de cadeia média e vitaminas lipossolúveis, além da intervenção cirúrgica oportuna.

Perguntas Frequentes

Quais são os sinais de alerta para colestase neonatal?

Os sinais de alerta incluem icterícia que persiste por mais de 14 dias de vida, acompanhada de colúria (urina escura que mancha a fralda) e hipocolia ou acolia fecal (fezes claras ou esbranquiçadas). Laboratorialmente, a definição de colestase neonatal é dada por uma bilirrubina direta (BD) maior que 1,0 mg/dL. A presença de hepatomegalia firme ao exame físico reforça a suspeita de doença hepatobiliar obstrutiva, exigindo investigação imediata para descartar causas cirúrgicas como a atresia de vias biliares.

Por que a cirurgia de Kasai deve ser realizada precocemente?

A atresia de vias biliares (AVB) causa uma obstrução progressiva dos ductos biliares extra-hepáticos, levando rapidamente à fibrose hepática e cirrose biliar secundária. A portoenterostomia de Kasai visa restabelecer o fluxo biliar. O sucesso do procedimento é altamente dependente da idade: se realizado antes dos 60 dias de vida, a chance de restabelecer a drenagem biliar é de aproximadamente 70-80%. Após os 90 dias, a eficácia cai drasticamente devido ao dano hepático irreversível, tornando o transplante hepático a única opção definitiva.

Qual o papel da ultrassonografia no diagnóstico da AVB?

A ultrassonografia abdominal é um exame inicial fundamental, preferencialmente realizado após jejum de 4 horas. Ela busca sinais indiretos de atresia de vias biliares, como a ausência ou hipoplasia da vesícula biliar e o 'sinal do cordão triangular' (uma massa ecogênica cone-focal anterior à bifurcação da veia porta, representando o remanescente fibrótico do ducto biliar). Embora útil, a ultrassonografia não exclui definitivamente a AVB se for normal, sendo muitas vezes necessária a biópsia hepática ou a colangiografia intraoperatória para confirmação.

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