Atresia Biliar: Diagnóstico e Indicação de Transplante

USP/HCFMUSP - Hospital das Clínicas da FMUSP (SP) — Prova 2025

Enunciado

Lactente, 4 meses de idade, nascido de parto normal, com 3.200 g, apresenta icterícia persistente desde o 20º dia de vida. Ao exame físico, encontra-se em bom estado geral, peso atual de 5.100 g, hepatomegalia discreta, endurecida e baço aumentado de volume. Não apresenta nenhuma massa palpável. Além de colúria, apresenta acolia persistente avaliada durante a internação e ascite discreta. As últimas dosagens de bilirrubinas mostraram níveis da fração direta de 12 mg/dL e indireta de 3 mg/dL; TGO/AST de 124 U/L; TGP/ALT de 96 U/L. A ultrassonografia de abdome realizada logo após a mamada, não descreveu nenhuma alteração. A biópsia hepática por agulha mostrou proliferação biliar ductal, trombos biliares e fibrose portal. Qual é o principal diagnóstico e a conduta mais adequada, respectivamente?

Alternativas

  1. A) Cisto de colédoco, correção cirúrgica.
  2. B) Cisto de colédoco, transplante hepático.
  3. C) Atresia de vias biliares, portoenteroanastomose.
  4. D) Atresia de vias biliares, transplante hepático.

Pérola Clínica

Lactente com icterícia >14 dias + acolia fecal + hepatomegalia dura = Atresia biliar até prova em contrário.

Resumo-Chave

A atresia biliar é uma colangiopatia obstrutiva progressiva e a principal causa de transplante hepático na infância. A idade avançada (4 meses) e os achados de fibrose na biópsia já indicam cirrose estabelecida, tornando a cirurgia de Kasai ineficaz e o transplante hepático a única opção curativa.

Contexto Educacional

A atresia de vias biliares (AVB) é uma doença inflamatória e fibrótica que leva à obstrução progressiva dos ductos biliares extra-hepáticos, resultando em colestase grave. É a causa mais comum de icterícia colestática no período neonatal e a principal indicação de transplante hepático em crianças. A etiologia exata é desconhecida, mas acredita-se que envolva fatores virais, genéticos e imunológicos. A apresentação clínica clássica ocorre em um recém-nascido a termo, com peso adequado, que desenvolve icterícia persistente, acolia fecal e colúria nas primeiras semanas de vida. Ao exame, nota-se hepatomegalia de consistência aumentada e, posteriormente, esplenomegalia e ascite, sinais de hipertensão portal e falência hepática. O diagnóstico é suspeitado clinicamente e confirmado por exames de imagem, laboratoriais e, definitivamente, pela biópsia hepática e colangiografia intraoperatória. O tratamento depende do estágio da doença. A cirurgia de Kasai (portoenteroanastomose) visa restabelecer o fluxo biliar e deve ser realizada idealmente antes dos 60 dias de vida para melhores resultados. No entanto, mesmo com a cirurgia, a maioria dos pacientes evolui com fibrose progressiva, cirrose e suas complicações, necessitando de transplante hepático como tratamento definitivo, como no caso apresentado, onde a idade e os achados histológicos já indicam doença avançada.

Perguntas Frequentes

Quais são os sinais de alarme para atresia de vias biliares em um lactente ictérico?

Os principais sinais são icterícia que persiste por mais de 14 dias de vida, acolia fecal (fezes esbranquiçadas ou amarelado-claras), colúria (urina escura que mancha a fralda) e hepatomegalia de consistência endurecida à palpação.

Qual é a conduta para atresia biliar e por que a idade é um fator crítico?

A conduta inicial é a portoenteroanastomose (cirurgia de Kasai), que tem maior chance de sucesso se realizada antes dos 60-90 dias de vida. Após essa janela, a fibrose hepática progride para cirrose, tornando a cirurgia paliativa ineficaz e indicando o transplante hepático como tratamento definitivo.

Como a biópsia hepática ajuda a diferenciar a atresia biliar de outras causas de colestase?

A biópsia hepática é o padrão-ouro. Na atresia biliar, os achados característicos são a proliferação de ductos biliares, a presença de tampões de bile nos canalículos e a fibrose portal, que confirmam a obstrução extra-hepática e o dano progressivo ao parênquima.

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