HSC - Hospital Samaritano Campinas (SP) — Prova 2024
Paciente masculino, 2 anos e 9 meses, foi encaminhado do pediatra para avaliação neurológica, pois não fala ainda. Filho único, nasceu seis meses antes do início da pandemia de COVID-19 e tinha contato exclusivamente com os pais, devido ao isolamento imposto por cerca de um ano e meio, já que seu pai é asmático. Como ambos os pais tiveram que trabalhar em esquema de home office, a opção foi deixa-lo muitas horas por dia defronte à televisão ou um tablet. Não acena espontaneamente e não manda beijos, mas atende ao chamado do próprio nome desde 1 ano e 2 meses de vida. Ainda não frequenta escola nem faz qualquer tipo de terapia. Passou por avaliação com otorrinolaringologista e realizou audiometria, com resultado normal. Não há antecedentes familiares significativos. Ao exame, o paciente fala somente palavras-frase, consegue nomear algumas coisas, apresenta boa compreensão, mas é arredio e evita contato visual. Não há déficits motores nem qualquer tipo de dismorfismo. O diagnóstico e a conduta adequados são:
Atraso de fala/socialização em criança com privação social e telas → considerar privação ambiental antes de TEA/Síndrome X-Frágil.
O atraso no desenvolvimento da fala e socialização em crianças expostas a privação social e tempo excessivo de telas durante períodos críticos pode ser primariamente ambiental, exigindo intervenção com estimulação, socialização e fonoterapia antes de diagnósticos mais complexos.
O desenvolvimento da linguagem e das habilidades sociais em crianças é um processo complexo e multifatorial, fortemente influenciado pelo ambiente e pelas interações. Fatores como a privação social prolongada e o tempo excessivo de exposição a telas digitais podem ter um impacto significativo, especialmente em fases críticas do desenvolvimento neuropsicomotor. A pandemia de COVID-19 impôs um cenário de isolamento que afetou muitas crianças, limitando suas oportunidades de interação social e estimulação. No caso apresentado, a criança de 2 anos e 9 meses com atraso de fala e socialização, mas com boa compreensão e audiometria normal, e histórico de isolamento e uso intenso de telas, sugere que a privação ambiental é um fator preponderante. Embora alguns sinais como evitar contato visual possam levantar a suspeita de Transtorno do Espectro Autista (TEA), a ausência de outros déficits motores ou dismorfismos, e a resposta ao nome, indicam que a intervenção inicial deve focar na reversão dos fatores ambientais. A conduta adequada envolve a estimulação ativa pelos pais, a inserção em ambiente escolar para promover a socialização e a interação com pares, e o início da fonoterapia para abordar especificamente o atraso da fala. Essa abordagem visa otimizar o ambiente de desenvolvimento da criança, permitindo que ela alcance seu potencial antes de considerar diagnósticos mais complexos que poderiam ser mascarados ou exacerbados pela privação.
Sinais de alerta incluem ausência de balbucio aos 12 meses, não usar gestos aos 12 meses, não falar palavras isoladas aos 16 meses, não combinar duas palavras aos 24 meses ou qualquer perda de habilidades de fala ou sociais.
O tempo excessivo de telas pode reduzir a interação face a face com cuidadores, essencial para o aprendizado da linguagem, e diminuir o tempo dedicado a brincadeiras exploratórias e sociais, prejudicando o desenvolvimento cognitivo e social.
A fonoterapia oferece estratégias direcionadas para estimular a produção e compreensão da linguagem, enquanto a socialização (como na escola) proporciona oportunidades cruciais para a prática da comunicação e o desenvolvimento de habilidades sociais.
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