FMABC - Faculdade de Medicina do ABC Paulista (SP) — Prova 2025
Em um pronto atendimento, durante a investigação de dor abdominal de um paciente Jovem foi evidenciado, no exame de tomografia, um achado ovoide de 1,5 cm no colon descendente, com pequena lâmina hiperdensa periférica e gordura marginal peritoneal espessada. Não foram evidenciadas alterações nos exames laboratoriais. Qual é o diagnóstico mais provável?
Dor focal + CT com imagem ovoide de gordura e anel hiperdenso = Apendagite epiploica.
A apendagite epiploica é uma condição inflamatória autolimitada causada por torção ou trombose venosa de apêndices epiploicos, mimetizando diverticulite ou apendicite, mas com manejo conservador.
A apendagite epiploica é uma causa frequentemente subdiagnosticada de dor abdominal aguda. Os apêndices epiploicos são pequenas projeções de gordura peritoneal e vasos que revestem o cólon. Devido à sua mobilidade e suprimento vascular terminal, são propensos a torção e infarto hemorrágico. O reconhecimento desta entidade é vital para o médico emergencista e para o cirurgião, pois evita hospitalizações prolongadas e laparotomias desnecessárias. Na prática clínica, o radiologista desempenha o papel principal ao identificar a imagem ovoide com anel hiperdenso, permitindo que o clínico tranquilize o paciente e prescreva apenas sintomáticos. É um exemplo clássico de como a imagem avançada mudou o manejo do abdome agudo de cirúrgico para expectante.
Os achados tomográficos clássicos incluem uma lesão ovoide com densidade de gordura (geralmente entre 1,5 a 3,5 cm) localizada adjacente à parede do cólon, mais comumente no sigmoide ou cólon descendente. Um sinal característico é o 'anel hiperdenso' periférico, que representa o peritônio visceral inflamado. Além disso, pode-se observar o 'sinal do ponto central' (central dot sign), que corresponde ao vaso trombosado no centro do apêndice epiploico, e espessamento da gordura peritoneal adjacente (borramento da gordura). Diferente da diverticulite, não há espessamento parietal importante do cólon ou presença de divertículos inflamados na área imediata.
Clinicamente, a diferenciação pode ser difícil, pois ambas se apresentam com dor abdominal localizada, frequentemente no quadrante inferior esquerdo. No entanto, pacientes com apendagite epiploica geralmente não apresentam sinais sistêmicos de infecção, como febre, leucocitose ou elevação significativa de Proteína C Reativa (PCR). A dor costuma ser súbita e bem localizada, sem as alterações do hábito intestinal ou náuseas intensas frequentemente associadas à diverticulite. O exame físico pode revelar dor à palpação localizada, mas raramente sinais de peritonite generalizada. O diagnóstico definitivo é quase exclusivamente radiológico.
O tratamento é eminentemente conservador e de suporte. Como se trata de um processo isquêmico/inflamatório autolimitado, a maioria dos casos resolve-se espontaneamente em 5 a 14 dias. O manejo baseia-se no controle da dor com anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) e analgésicos simples. O uso de antibióticos não é indicado, pois não há um componente infeccioso bacteriano primário. A cirurgia é reservada apenas para casos raros de complicações, como intussuscepção, obstrução intestinal ou se o apêndice inflamado se tornar um corpo livre (camundongo peritoneal) que cause sintomas compressivos, o que é extremamente incomum.
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