INEP Revalida - Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos — Prova 2017
Uma adolescente com 16 anos de idade é trazida à Unidade Básica de Saúde (UBS) pela mãe, apresentando quadro de tristeza e amenorreia há 4 meses. A mãe relata que o comportamento da adolescente tem mudado desde que ela passou a frequentar o grupo de dança da comunidade onde mora, há um ano. Informa que, desde então, a filha vem perdendo peso e tem se alimentado apenas com frutas e verduras, recusando-se a participar dos eventos familiares e se isolando de amigos da escola, embora continue a frequentar com assiduidade o grupo de dança. Ao exame físico, a adolescente mostra-se triste e pouco interativa, está hipocorada, hidratada, eupneica. Apresenta índice de massa corporal = 15 kg/m²; pressão arterial = 90 x 50 mmHg; frequência cardíaca = 55 bpm. Observa-se discreto aumento do volume das parótidas bilateralmente. Exames laboratoriais realizados na UBS mostram anemia normocrômica/normocítica, elevação de amino- transferases, hiponatremia, normocalemia e nível de creatinina normal. Diante do quadro clínico apresentado, o diagnóstico e a conduta mais apropriada a ser tomada pelo médico de família são:
IMC < 15 + Bradicardia + Hipotensão + Amenorreia → Anorexia Nervosa Grave (Internação Urgente).
A anorexia nervosa em adolescentes com instabilidade hemodinâmica (bradicardia, hipotensão) e desnutrição grave (IMC < 15) exige internação hospitalar imediata para estabilização clínica e prevenção da síndrome de realimentação.
A anorexia nervosa é o transtorno psiquiátrico com maior taxa de mortalidade, frequentemente por complicações cardiovasculares ou suicídio. O caso clínico apresenta uma adolescente com sinais clássicos de gravidade: IMC de 15 kg/m², bradicardia e hipotensão, além de alterações laboratoriais. O reconhecimento de que este é um quadro de transtorno alimentar grave, e não apenas depressão, é vital para a sobrevivência da paciente, exigindo uma abordagem multidisciplinar que começa pela estabilização hospitalar.
A internação hospitalar (em enfermaria clínica ou pediátrica) é indicada quando há instabilidade clínica ou risco de vida. Os critérios principais incluem: desnutrição grave (peso < 75% do ideal ou IMC muito baixo para a idade), bradicardia extrema (< 40-50 bpm), hipotensão arterial (< 80/50 mmHg), arritmias cardíacas, distúrbios hidroeletrolíticos graves (hipocalemia, hiponatremia, hipofosfatemia), desidratação, síncope ou recusa alimentar absoluta. Além disso, falha no tratamento ambulatorial e risco de suicídio também justificam a internação. O objetivo inicial é a estabilização hemodinâmica e o início cauteloso da reintrodução alimentar para evitar a síndrome de realimentação.
O aumento bilateral das glândulas parótidas (sialadenose) é comum em pacientes que utilizam métodos purgativos, como vômitos induzidos, embora também possa ocorrer pela desnutrição per se. Já a elevação das aminotransferases (TGO/TGP) na anorexia nervosa é um sinal de sofrimento hepático decorrente da autofagia celular e esteatose por desnutrição proteico-calórica grave. Essas alterações laboratoriais, junto com a anemia normocítica e normocrômica (por hipoplasia medular), reforçam o estado de catabolismo sistêmico e a gravidade do quadro clínico, indicando que o corpo está consumindo suas próprias reservas e tecidos para manter funções vitais básicas.
A Síndrome de Realimentação é uma complicação potencialmente fatal que ocorre quando pacientes gravemente desnutridos recebem carga calórica (especialmente carboidratos) de forma rápida. O aumento da insulina promove o influxo celular de eletrólitos, causando hipofosfatemia, hipocalemia e hipomagnesemia agudas. Isso pode levar a insuficiência cardíaca, arritmias, convulsões e óbito. Para preveni-la, a reintrodução alimentar deve ser lenta e gradual (iniciando com 5-10 kcal/kg/dia em casos extremos), com monitoramento rigoroso de eletrólitos e suplementação de tiamina antes do início da oferta de glicose, garantindo uma recuperação segura.
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