HSL/Sírio - Hospital Sírio-Libanês (DF) — Prova 2024
Uma mulher de 54 anos de idade relata fadiga, dispneia em esforços intensos, lipotimia, palpitações e perda de peso não quantificada nos últimos seis meses. Não menciona restrições alimentares, porém, refere síncope há um mês. Informa que foi hospitalizada recentemente, recebendo transfusão sanguínea devido a uma importante alteração no sangue . Antecedentes médicos incluem hipertensão arterial sistêmica, obesidade, hipotireoidismo, esteatose hepática e dislipidemia, negando tabagismo e etilismo. Na história familiar, destaca-se a presença de artrite reumatoide na mãe, que está em tratamento com anti-hipertensivos e hipolipemiantes. No exame físico, observa-se palidez cutaneomucosa, sem outras alterações evidentes. Os exames laboratoriais revelam hemoglobina de 9,8 g/dL, hematócrito de 37,4%, VCM de 114 fL, HCM de 41 e leucograma com quantitativo sem alterações notáveis, exceto por uma anomalia visualizada no esfregaço de sangue periférico, conforme imagem apresentada acima.Considerando o quadro clínico, exames laboratoriais e achado de série branca e assunto correlatos que o caso clínico suscita, julgue:Confirmada a principal hipótese diagnóstica para o caso, há risco aumentado para adenocarcinoma gástrico.
Anemia perniciosa = Gastrite atrófica autoimune → ↑ Risco de Adenocarcinoma Gástrico.
A anemia perniciosa decorre da destruição autoimune das células parietais, levando à gastrite atrófica. Esta condição é pré-maligna, elevando o risco de adenocarcinoma e tumores carcinoides gástricos.
A anemia perniciosa é a causa mais comum de deficiência de vitamina B12 em adultos e está intrinsecamente ligada à gastrite atrófica metaplásica autoimune. O quadro clínico clássico envolve sintomas de anemia (fadiga, palidez) associados a achados laboratoriais de macrocitose (VCM > 100 fL) e neutrófilos hipersegmentados no sangue periférico. A presença de doenças autoimunes concomitantes, como hipotireoidismo ou vitiligo, reforça a suspeita diagnóstica. O ponto crítico para o manejo clínico é o reconhecimento de que a anemia perniciosa não é apenas uma desordem hematológica, mas uma condição pré-neoplásica gástrica. Pacientes com esta condição apresentam um risco relativo significativamente maior para o desenvolvimento de adenocarcinoma gástrico e tumores neuroendócrinos. Portanto, além da reposição vitalícia de vitamina B12, a vigilância gastrointestinal torna-se um pilar fundamental no cuidado desses pacientes a longo prazo.
A anemia perniciosa é uma doença autoimune caracterizada pela produção de anticorpos contra as células parietais gástricas ou contra o fator intrínseco. A destruição das células parietais leva à acloridria e à falta de fator intrínseco, essencial para a absorção da vitamina B12 no íleo terminal. A carência de B12 resulta em síntese defeituosa de DNA, manifestando-se como anemia megaloblástica e alterações neurológicas.
A inflamação crônica e a atrofia da mucosa gástrica (gastrite atrófica tipo A) induzidas pela autoimunidade promovem a metaplasia intestinal, que é uma lesão precursora do adenocarcinoma gástrico. Além disso, a acloridria causa hipergastrinemia compensatória, que estimula a proliferação de células enterocromafins-like (ECL), aumentando o risco de tumores neuroendócrinos (carcinoides) gástricos tipo I.
Embora as diretrizes variem, muitos especialistas recomendam uma endoscopia digestiva alta (EDA) inicial no momento do diagnóstico de anemia perniciosa para avaliar a extensão da atrofia e pesquisar lesões pré-neoplásicas ou neoplasias precoces. O seguimento endoscópico subsequente deve ser individualizado com base nos achados histológicos de metaplasia ou displasia, conforme os protocolos de vigilância de gastrite atrófica.
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