SUS-BA - Sistema Único de Saúde da Bahia — Prova 2023
Mulher, 34 anos de idade, gestante de 23 semanas, realizou exames laboratoriais de rotina pré-natal e vem para consulta médica após ultrassonografia morfológica de 2º trimestre, sem nenhuma alteração. Fez exames laboratoriais: Hb: 10,0g/dL e Hematócrito: 30%; VCM: 76fl (VR: 80 – 100fl) e HCM < 25pg (VR: 28 – 34pg). Eletroforese de hemoglobina evidencia traço falciforme e a paciente refere que seu parceiro também possui traço falciforme.Indique o nível de hemoglobina normal esperado para o diagnóstico de anemia em uma gestação de 2º trimestre.\n
Anemia no 2º trimestre gestacional = Hemoglobina < 10,5 g/dL.
Durante a gestação, ocorre um aumento desproporcional do volume plasmático em relação à massa eritrocitária, resultando em hemodiluição e queda nos níveis de hemoglobina.
A anemia é a complicação hematológica mais prevalente no período gestacional, sendo a etiologia ferropriva responsável por mais de 90% dos casos. O diagnóstico correto depende da compreensão das alterações fisiológicas maternas: a expansão do volume plasmático é um mecanismo adaptativo essencial, mas que altera os parâmetros laboratoriais hematimétricos. No caso clínico apresentado, a paciente possui traço falciforme (HbAS), o que geralmente não causa anemia hemolítica, mas pode estar associado a anemias microcíticas se houver deficiência de ferro concomitante. O reconhecimento do valor de 10,5 g/dL como limite inferior da normalidade no segundo trimestre evita diagnósticos errôneos de anemia patológica quando há apenas a adaptação fisiológica esperada para a idade gestacional.
A queda nos níveis de hemoglobina durante a gestação é um fenômeno fisiológico conhecido como hemodiluição. Isso ocorre porque o volume plasmático materno expande-se significativamente (cerca de 50%) para garantir a perfusão placentária e proteger contra perdas sanguíneas no parto. Embora a massa de glóbulos vermelhos também aumente (cerca de 20-30% devido ao estímulo da eritropoetina), esse aumento é proporcionalmente menor que o do plasma. O pico dessa disparidade ocorre no segundo trimestre, resultando em uma queda relativa da concentração de hemoglobina, o que exige critérios diagnósticos específicos para este período.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde do Brasil, os critérios para o diagnóstico de anemia na gestação variam conforme o tempo gestacional: no primeiro trimestre (até 12 semanas), considera-se anemia Hb < 11,0 g/dL; no segundo trimestre (13 a 28 semanas), o ponto de corte é Hb < 10,5 g/dL devido ao pico da hemodiluição; e no terceiro trimestre (acima de 28 semanas), o valor retorna para Hb < 11,0 g/dL. Valores de hemoglobina abaixo de 7,0 g/dL são classificados como anemia grave e exigem investigação imediata e manejo especializado.
Para gestantes que não apresentam anemia (Hb > 11,0 g/dL no 1º trimestre), o Ministério da Saúde recomenda a suplementação profilática de ferro para prevenir a deficiência ferropriva, dada a alta demanda do feto e da placenta. A recomendação é de 40 mg de ferro elementar por dia (equivalente a 200 mg de sulfato ferroso), iniciando a partir da 20ª semana de gestação e mantendo até o 3º mês pós-parto para mulheres não lactantes. Além disso, deve-se suplementar 5 mg de ácido fólico por dia para prevenção de defeitos do tubo neural e auxílio na eritropoese.
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