MedEvo Simulado — Prova 2026
Um menino de 22 meses é levado à consulta pediátrica devido à palidez progressiva e irritabilidade notadas pelos pais no último mês. Na história alimentar, a mãe relata que a criança consome cerca de 900 mL de leite de vaca integral por dia e apresenta baixa aceitação de alimentos sólidos, especialmente carnes e leguminosas. Ao exame físico, a criança encontra-se em bom estado geral, porém com palidez cutâneo-mucosa evidente (2+/4+), sem linfonodomegalias ou visceromegalias. O hemograma solicitado revela os seguintes valores: Hemoglobina de 8,8 g/dL, Hematócrito de 27%, Volume Corpuscular Médio (VCM) de 62 fL, Hemoglobina Corpuscular Média (HCM) de 20 pg, RDW (Amplitude de Distribuição Eritrocitária) de 19,2%, Leucócitos de 7.800/mm³ com diferencial normal e Plaquetas de 485.000/mm³. Diante do quadro clínico e laboratorial apresentado, a hipótese diagnóstica mais provável e a conduta inicial correta são:
Anemia microcítica + RDW ↑ + consumo de leite > 700mL/dia → Anemia Ferropriva.
A anemia ferropriva é a carência nutricional mais comum na infância, caracterizada por microcitose, hipocromia e RDW elevado, frequentemente associada ao consumo excessivo de leite de vaca.
A anemia ferropriva representa a principal causa de anemia na infância mundialmente, sendo um tema onipresente em provas de residência. O diagnóstico baseia-se na clínica de palidez e irritabilidade somada a um hemograma com padrão microcítico e hipocrômico. O aumento do RDW é o marcador mais precoce e sensível para diferenciar da talassemia minor. O tratamento padrão envolve a administração de ferro elementar (3 a 6 mg/kg/dia) por tempo prolongado, visando não apenas normalizar a hemoglobina, mas também repor os estoques de ferritina. A orientação dietética, limitando o leite de vaca e estimulando a ingestão de ferro heme e vitamina C, é crucial para o sucesso terapêutico e prevenção de recidivas.
O RDW (Red Cell Distribution Width) mede a variação de tamanho entre as hemácias (anisocitose). Na anemia ferropriva, a deficiência de ferro ocorre de forma progressiva, gerando populações de células com tamanhos diferentes, o que eleva o RDW. Em contrapartida, na Beta-talassemia minor, a produção de hemácias microcíticas é geneticamente determinada e homogênea, resultando em um RDW geralmente normal. Portanto, um RDW elevado em um cenário de microcitose é um forte preditor de deficiência de ferro, auxiliando na distinção inicial antes de exames mais complexos como a eletroforese de hemoglobina.
O consumo excessivo de leite de vaca (geralmente > 500-700 mL/dia) é um dos principais fatores de risco para anemia ferropriva em lactentes e pré-escolares. O leite de vaca possui baixa biodisponibilidade de ferro, pode causar micro-hemorragias intestinais devido à irritação da mucosa pela proteína do leite e, além disso, o cálcio e a caseína presentes competem e inibem a absorção do ferro não-heme proveniente de outras fontes alimentares. A saciedade precoce causada pelo volume de leite também reduz a aceitação de alimentos ricos em ferro, como carnes e leguminosas.
A trombocitose (aumento das plaquetas) é um achado frequente na anemia ferropriva e é considerada uma resposta reativa. A fisiopatologia exata não é totalmente esclarecida, mas acredita-se que a elevação da eritropoietina (EPO) em resposta à anemia possa ter um efeito estimulador cruzado na trombopoiese, devido à semelhança estrutural entre a EPO e a trombopoietina. É fundamental que o clínico reconheça que essa trombocitose é benigna e se normaliza com a reposição adequada de ferro, não devendo ser confundida com processos inflamatórios agudos ou doenças mieloproliferativas.
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