INEP Revalida - Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos — Prova 2014
Em consulta regular na Unidade Básica de Saúde, uma adolescente, com 16 anos de idade e diagnóstico de anemia falciforme, refere que tem apresentado crises de dor do tipo cólica localizada em hipocôndrio direito, que se acentua após a alimentação e melhora com o uso de hioscina por via oral. Nega outros sintomas. São achados relevantes ao exame físico: paciente levemente hipocorada, apresentando dor à palpação profunda de hipocôndrio direito. O exame indicado para o esclarecimento da causa da dor nessa paciente é:
Anemia falciforme + dor em hipocôndrio direito pós-prandial = Colelitíase (Cálculos de bilirrubinato).
Pacientes com anemia falciforme apresentam alta incidência de colelitíase devido à hemólise crônica, que gera excesso de bilirrubina indireta e formação de cálculos pigmentados.
A anemia falciforme é uma doença genética caracterizada pela presença da hemoglobina S. Sob condições de desoxigenação, a HbS polimeriza, deformando a hemácia em formato de foice. Isso leva a dois processos principais: vaso-oclusão e hemólise extravascular crônica. A colelitíase ocorre em até 70% dos pacientes falcêmicos adultos. A formação de cálculos de bilirrubinato de cálcio começa cedo, muitas vezes na infância. O manejo clínico exige vigilância, pois a colecistite aguda pode mimetizar ou desencadear crises vaso-oclusivas sistêmicas. A colecistectomia videolaparoscópica é frequentemente indicada mesmo em pacientes assintomáticos ou oligossintomáticos para prevenir complicações graves como coledocolitíase e pancreatite biliar.
A anemia falciforme é uma anemia hemolítica crônica. A destruição contínua das hemácias falcizadas libera grandes quantidades de hemoglobina, que é metabolizada em bilirrubina indireta (não conjugada). O fígado conjuga essa bilirrubina, mas a sobrecarga leva a uma bile supersaturada de bilirrubinato de cálcio. Esse excesso de pigmento precipita na vesícula biliar, formando cálculos 'pigmentados' ou 'pretos', que são muito mais frequentes nesta população do que os cálculos de colesterol da população geral.
A ultrassonografia de abdome superior é o exame de escolha (padrão-ouro inicial) devido à sua alta sensibilidade e especificidade para detectar cálculos biliares, além de ser um método não invasivo e sem radiação. Ela permite visualizar a presença de cálculos, avaliar a espessura da parede da vesícula (sinal de colecistite) e a dilatação das vias biliares. Em pacientes falcêmicos com dor recorrente em hipocôndrio direito, o USG é essencial para diferenciar a cólica biliar de crises vaso-oclusivas hepáticas ou esplênicas.
A cólica biliar geralmente é desencadeada pela alimentação (pós-prandial) e localiza-se no hipocôndrio direito, muitas vezes com irradiação para a escápula. Já a crise vaso-oclusiva hepática (ou sequestro hepático) costuma cursar com dor mais difusa, hepatomegalia dolorosa aguda e aumento súbito das transaminases e bilirrubinas. A ultrassonografia ajuda a confirmar a presença de cálculos, enquanto o hemograma e as provas de função hepática auxiliam na identificação da crise de falcilização.
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