Anemia de Doença Crônica: Diagnóstico e Achados Laboratoriais

UFRGS/HCPA - Hospital de Clínicas de Porto Alegre (RS) — Prova 2020

Enunciado

Paciente de 67 anos, tabagista desde a adolescência, veio à consulta por cansaço progressivo, perda de apetite e emagrecimento. As mucosas estavam descoradas. Trouxe um hemograma mostrando anemia (hemoglobina de 9,6 g/dl) e VCM de 78 fl (valor de referência: 80-100 fl), sem elevação de reticulócitos. Os níveis de LDH e de haptoglobina estavam normais, os de ferritina elevados e os de ferro e de saturação da transferrina normais. Havia linfopenia, mas não alterações nas plaquetas.Sobre a anemia desse paciente, assinale a assertiva correta.

Alternativas

  1. A)  O padrão sugere fortemente anemia hemolítica microangiopática.
  2. B)  O padrão laboratorial sugere deficiência de vitamina B12 ou de folato com resposta medular adequada, devendo ser realizada investigação neste sentido.
  3. C)  Os dados sugerem anemia de doença crônica, mas sangramento crônico não pode ser descartado completamente.
  4. D)  Há indícios de hemorragia intensa recente associada a neoplasia de trato respiratório.
  5. E)  Há alta probabilidade de anemia microcítica por talassemia menor.

Pérola Clínica

Anemia microcítica + Ferritina ↑ + Ferro/Sat. Transferrina normal → Anemia de Doença Crônica (considerar sangramento crônico).

Resumo-Chave

A anemia de doença crônica (ADC) é tipicamente normocítica-normocrômica, mas pode ser microcítica em 20-30% dos casos. A ferritina elevada e os níveis normais de ferro e saturação da transferrina, na presença de VCM baixo, são sugestivos de ADC, embora a deficiência de ferro concomitante por sangramento crônico (comum em idosos tabagistas) deva ser sempre considerada.

Contexto Educacional

A anemia de doença crônica (ADC) é a segunda causa mais comum de anemia, superada apenas pela anemia ferropriva. É uma condição multifatorial, frequentemente associada a processos inflamatórios crônicos, infecções, neoplasias e doenças autoimunes, sendo crucial para o residente reconhecer seus padrões. A fisiopatologia da ADC envolve a produção de citocinas inflamatórias (como IL-6) que levam ao aumento da hepcidina, bloqueando a liberação de ferro dos macrófagos e a absorção intestinal. Isso resulta em ferro sérico baixo e ferritina normal ou elevada (devido ao seu papel como reagente de fase aguda). O diagnóstico requer a exclusão de outras causas de anemia, especialmente a ferropriva, e a identificação da doença subjacente. O tratamento da ADC foca no manejo da doença de base. A suplementação de ferro geralmente não é eficaz devido ao bloqueio da sua utilização. Em casos selecionados, eritropoetina ou transfusões podem ser indicadas. É vital estar atento à coexistência de deficiência de ferro, que pode exigir investigação e tratamento específicos, como a pesquisa de sangramento oculto.

Perguntas Frequentes

Quais são os principais achados laboratoriais da anemia de doença crônica?

A anemia de doença crônica classicamente apresenta-se como normocítica-normocrômica, mas pode ser microcítica. Os níveis de ferritina são geralmente normais ou elevados (sendo um reagente de fase aguda), enquanto o ferro sérico e a saturação da transferrina podem ser normais ou baixos.

Como diferenciar anemia de doença crônica de anemia ferropriva?

Na anemia ferropriva, a ferritina é baixa, o ferro sérico e a saturação da transferrina são baixos, e a capacidade total de ligação do ferro (TIBC) é alta. Na anemia de doença crônica, a ferritina é normal ou alta, o ferro sérico e a saturação da transferrina podem ser normais ou baixos, e o TIBC é normal ou baixo.

Por que o sangramento crônico deve ser considerado em pacientes com anemia de doença crônica?

Pacientes idosos, especialmente tabagistas, têm alto risco de sangramento crônico (ex: gastrointestinal por neoplasia ou úlcera), que pode coexistir com a anemia de doença crônica, mascarando a deficiência de ferro ou tornando-a mais complexa. A investigação é fundamental.

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