Amiloidose Cardíaca: Diagnóstico em Idosos e Sinais Chave

Santa Casa de Belo Horizonte (MG) — Prova 2023

Enunciado

Mulher de 75 anos queixa-se de dispneia aos esforços e ortopneia. É portadora de HAS, síndrome do túnel do carpo bilateral e faz uso regular de enalapril 20mg ao dia. Ao exame físico, PA: 100x64mmHg, FC: 72bpm, SpO2 96% (aa). O exame cardíaco revela ritmo regular; as bulhas são normofonéticas e não há bulhas acessórias. A segunda bulha apresenta desdobramento inspiratório. Ausculta-se sopro mesossistólico, grau 2, suave, no 2 espaço intercostal direito com irradiação para a fúrcula esternal. Traz os resultados de exames a seguir: Ecocardiograma: hipertrofia concêntrica leve do VE (SIV 12mm; PPVE 12mm), com aspecto hiper-refringente do miocárdio. Câmaras cardíacas de volumes normais. Paredes atriais e de VD de espessura aumentada. A função sistólica biventricular é normal. Disfunção diastólica grau 2 do VE. Valva aórtica com folhetos espessados, fibrosados, fibrosas e calcificados. Há restrição discreta à abertura valvar com gradiente pressórico leve, sem regurgitação valvar. Eletrocardiograma: Considerando o caso descrito, assinale a alternativa que apresenta a hipótese diagnóstica MAIS adequada para essa paciente. 

Alternativas

  1. A) Hipertrofia ventricular secundária à estenose aórtica.
  2. B) Cardiopatia hipertensiva.
  3. C) Amiloidose cardiaca.
  4. D) Miocardiopatia hipertrófica.

Pérola Clínica

Idoso + IC com FEVE normal + hipertrofia VE + STC bilateral + miocárdio hiper-refringente = Amiloidose Cardíaca.

Resumo-Chave

A amiloidose cardíaca deve ser suspeitada em idosos com insuficiência cardíaca de fração de ejeção preservada, hipertrofia ventricular esquerda, e achados extracardíacos como síndrome do túnel do carpo bilateral. O ecocardiograma com miocárdio hiper-refringente e espessamento de todas as paredes cardíacas, incluindo átrios e VD, é altamente sugestivo.

Contexto Educacional

A amiloidose cardíaca é uma cardiomiopatia restritiva causada pela deposição extracelular de fibrilas amiloides no miocárdio, levando a um aumento da espessura das paredes cardíacas e disfunção diastólica. É uma causa subdiagnosticada de insuficiência cardíaca, especialmente em idosos, e sua prevalência tem sido cada vez mais reconhecida. A forma mais comum em idosos é a amiloidose por transtirretina (ATTR), que pode ser selvagem (senil) ou hereditária. A fisiopatologia envolve o acúmulo de proteínas mal enoveladas (fibrilas amiloides) que se depositam no interstício miocárdico, tornando o coração rígido e comprometendo seu enchimento diastólico. Clinicamente, manifesta-se como insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEP), dispneia, ortopneia e edema. Achados extracardíacos como síndrome do túnel do carpo bilateral, estenose espinhal lombar e ruptura espontânea de tendões são pistas importantes. O ecocardiograma revela hipertrofia ventricular esquerda concêntrica, aspecto "granular" ou hiper-refringente do miocárdio, espessamento das paredes atriais e do ventrículo direito, e disfunção diastólica restritiva. O ECG pode mostrar baixa voltagem apesar da hipertrofia. O diagnóstico definitivo requer biópsia (gordura abdominal, medula óssea ou miocárdio) com coloração de vermelho Congo, mas exames de imagem como cintilografia com tecnécio-99m pirofosfato (PYP) são cada vez mais utilizados para diagnosticar amiloidose ATTR sem biópsia cardíaca. O tratamento visa estabilizar a proteína transtirretina (com tafamidis, por exemplo) e manejar os sintomas da insuficiência cardíaca. O prognóstico varia com o tipo de amiloidose e o estágio da doença ao diagnóstico.

Perguntas Frequentes

Quais são os sinais clínicos e ecocardiográficos que sugerem amiloidose cardíaca em um paciente idoso?

Sinais clínicos incluem insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, síndrome do túnel do carpo bilateral, ruptura espontânea do tendão do bíceps e estenose espinhal. Ecocardiograficamente, observa-se hipertrofia ventricular esquerda com aspecto "granular" ou hiper-refringente do miocárdio, espessamento de todas as paredes cardíacas (incluindo átrios e VD) e disfunção diastólica.

Por que a síndrome do túnel do carpo bilateral é um achado importante na suspeita de amiloidose cardíaca?

A síndrome do túnel do carpo bilateral é um achado extracardíaco comum na amiloidose por transtirretina (ATTR), pois os depósitos de amiloide podem infiltrar os ligamentos e tecidos moles, comprimindo o nervo mediano. Sua presença deve levantar a suspeita de amiloidose sistêmica.

Como diferenciar a amiloidose cardíaca de outras causas de hipertrofia ventricular esquerda, como a cardiomiopatia hipertensiva ou estenose aórtica?

A amiloidose cardíaca se distingue pela hipertrofia concêntrica com função sistólica preservada, miocárdio hiper-refringente, espessamento de todas as paredes cardíacas (incluindo átrios e VD), disfunção diastólica restritiva e, frequentemente, baixo voltagem no ECG. A estenose aórtica grave teria gradientes pressóricos mais elevados, e a cardiomiopatia hipertensiva geralmente não apresenta o aspecto granular do miocárdio ou envolvimento atrial e de VD tão proeminente.

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