SUS-BA - Sistema Único de Saúde da Bahia — Prova 2022
Paciente vem à emergência obstétrica referindo estar gestante – com exame de Beta HCG positivo. Relatou que apresentou sangramento vaginal e cólicas, ambos de leve intensidade. Baseada na data da ultima menstruação, a idade gestacional é de 8 semanas.Ao Exame físico: PA: 120x80mmHg, FC: 80bpm, Temperatura Axilar: 36,5°C, Mucosas coradas. Abdomen plano, flácido, sem visceromegalias. Toque vaginal: orifício externo pérvio a 1 polpa digital e orifício interno fechado. Indique o diagnóstico no momento do atendimento na emergência obstétrica.
Sangramento + Colo fechado + Embrião vivo/Idade gestacional compatível = Ameaça de Abortamento.
Na ameaça de abortamento, há sangramento vaginal sem eliminação de tecidos e o orifício interno do colo permanece fechado, diferenciando-se do abortamento inevitável ou incompleto.
O sangramento na primeira metade da gestação é uma queixa frequente na emergência obstétrica, ocorrendo em cerca de 20-25% das gestações. A ameaça de abortamento é caracterizada por sangramento de origem uterina, com ou sem dor abdominal, em que o colo uterino se mantém fechado e o concepto permanece viável. O diagnóstico é clínico, baseado na anamnese e no exame físico (especular e toque vaginal). A avaliação deve sempre descartar diagnósticos diferenciais graves, como a gravidez ectópica e a doença trofoblástica gestacional. A ultrassonografia é a ferramenta padrão-ouro para confirmar a localização da gestação e a presença de batimentos cardíacos fetais. Na maioria dos casos de ameaça de abortamento, o prognóstico é favorável, mas o risco de perda gestacional subsequente ou complicações obstétricas tardias (como descolamento prematuro de placenta) é ligeiramente aumentado.
A principal diferença reside na dilatação cervical. Na ameaça de abortamento, o orifício interno do colo uterino permanece fechado, apesar do sangramento vaginal e das cólicas. No abortamento inevitável, o colo já apresenta dilatação (orifício interno aberto), indicando que o processo de expulsão é iminente ou já está ocorrendo, geralmente acompanhado de dor mais intensa e sangramento mais volumoso. É fundamental realizar o toque vaginal com técnica adequada para distinguir o orifício externo (que pode estar pérvio em multíparas) do orifício interno. Além disso, na ameaça, a vitalidade embrionária costuma estar preservada, enquanto no inevitável o prognóstico gestacional é nulo, exigindo conduta ativa para esvaziamento uterino ou acompanhamento da expulsão completa.
Em pacientes multíparas, é comum que o orifício externo do colo uterino seja pérvio a uma polpa digital devido a partos anteriores. O achado clínico crucial para o diagnóstico de ameaça de abortamento é a manutenção do orifício interno fechado. Se o orifício interno estiver fechado ao toque vaginal, o diagnóstico permanece como ameaça, independentemente da patência do orifício externo. O examinador deve progredir o dedo com cuidado pelo canal cervical; se encontrar resistência no orifício interno, a integridade cervical está mantida. Este é um ponto de confusão frequente em provas de residência, onde a descrição de 'colo pérvio' sem especificar qual orifício pode induzir ao erro, mas a menção de 'orifício interno fechado' é o determinante diagnóstico.
A conduta na ameaça de abortamento é predominantemente expectante e ambulatorial na maioria dos casos estáveis. Recomenda-se repouso relativo (embora sem evidência robusta de que mude o desfecho final), abstinência sexual para evitar trauma cervical e contrações uterinas reflexas, e analgesia simples se houver cólicas. O uso de progesterona natural micronizada (via vaginal) é amplamente discutido; embora o estudo PRISM sugira benefício em mulheres com sangramento e histórico de abortos prévios, seu uso rotineiro ainda é debatido. É imperativo realizar uma ultrassonografia transvaginal para confirmar a localização tópica da gestação, avaliar a presença de batimentos cardíacos fetais e descartar diagnósticos diferenciais como gravidez ectópica ou mola hidatiforme.
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