Câncer de Pâncreas: Sinais Clínicos e Fatores de Risco

INEP Revalida - Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos — Prova 2023

Enunciado

Um homem branco de 68 anos, aposentado, vai a uma consulta no ambulatório de cirurgia geral após ser encaminhado pela unidade básica de saúde (UBS). Ele apresenta queixa de dor abdominal há 2 meses — epigástrica, sem relação com alimentação — e perda de 20 Kg em 3 meses. Há 1 mês vem apresentando icterícia, colúria, acolia e prurido cutâneo. O paciente é etilista de cerca de 20 g de etanol ao dia e tabagista de 20 maços/ano. Tem hipertensão arterial sistêmica, gastrite crônica e diabetes mellitus tipo 2, o qual foi diagnosticado há 1 ano. Ele faz uso contínuo de losartana 50 mg/dia, de hidroclorotiazida 25 mg/dia, de omeprazol 20 mg/dia e de metformina 850 mg 2 vezes ao dia. Ao exame físico, apresenta bom estado geral, hipocorado +/4+, hidratado, eupneico, ictérico 3+/4+ e acianótico; peso de 98 Kg, altura de 1,80 m, frequência cardíaca de 88 batimentos por minuto, pressão arterial de 140 × 88 mmHg; palpação de massa arredondada abaixo do bordo costal direito, de consistência fibroelástica, indolor; dor à palpação profunda em quadrante superior direito abdominal, ruídos hidroaéreos presentes, descompressão brusca negativa; os demais aspectos do exame físico apresentam-se sem particularidades. Os exames séricos apresentaram o seguinte resultado:Tomografia computadorizada de abdome: massa sólida em cabeça do pâncreas com 5 cm de diâmetro, com sinais de invasão duodenal e de vasos mesentéricos. Dilatação acentuada das vias biliares intra e extra-hepáticas. Vesícula biliar aumentada de volume, com paredes finas e conteúdo homogêneo em seu interior. Tomografia computadorizada de tórax: normal.Com relação ao caso clínico apresentado, faça o que se pede nos itens a seguir. a) Cite três fatores de risco para neoplasia de pâncreas apresentados nesse caso. Serão pontuados apenas os três primeiros fatores de risco indicados. (valor: 1,5 pontos) b) Quais são as duas utilidades do exame CA 19.9 nesse caso? Serão pontuadas apenas as duas primeiras utilidades indicadas. (valor: 2,0 pontos) c) O que significa a massa palpável encontrada no exame físico? (valor: 2,0 pontos) d) Cite duas condutas clínicas e três condutas cirúrgicas possíveis para esse paciente. Serão pontuadas apenas as cinco primeiras condutas indicadas. (valor: 4,5 pontos)

Alternativas

Pérola Clínica

Icterícia obstrutiva + vesícula de Courvoisier + perda ponderal = Câncer de cabeça de pâncreas.

Resumo-Chave

O câncer de pâncreas frequentemente se manifesta com icterícia indolor e sinal de Courvoisier; o surgimento recente de DM2 em idosos é um importante sinal de alerta paraneoplásico.

Contexto Educacional

O adenocarcinoma de pâncreas é uma das neoplasias mais letais do trato digestivo, frequentemente diagnosticada em estágios avançados devido à sua localização retroperitoneal e sintomas iniciais vagos. Os principais fatores de risco identificados no caso são a idade avançada, o tabagismo (carga tabágica de 20 maços/ano), o etilismo e o diabetes mellitus de início recente. A apresentação clínica clássica de icterícia colestática (colúria, acolia e prurido) associada à perda ponderal significativa e dor epigástrica é altamente sugestiva de tumor na cabeça do pâncreas, que causa obstrução do ducto colédoco. O estadiamento é realizado preferencialmente por tomografia computadorizada de protocolo pancreático. No caso descrito, a invasão de vasos mesentéricos e do duodeno sugere uma doença localmente avançada ou borderline ressecável, o que impacta diretamente na conduta. As condutas clínicas envolvem suporte nutricional, controle da dor e manejo do diabetes. As condutas cirúrgicas podem ser curativas, como a gastroduodenopancreatectomia (Cirurgia de Whipple) se houver ressecabilidade, ou paliativas, como derivações biliodigestivas ou gastrojejunostomias para alívio da obstrução biliar e duodenal, respectivamente.

Perguntas Frequentes

O que é o sinal de Courvoisier-Terrier e qual sua importância?

O sinal de Courvoisier-Terrier refere-se à palpação de uma vesícula biliar distendida e indolor em um paciente com icterícia obstrutiva. Diferente da colelitíase, onde a vesícula costuma estar fibrótica e não palpável devido a inflamações prévias, na obstrução neoplásica distal (como no câncer de cabeça de pâncreas), a vesícula é saudável e dilata progressivamente pela pressão da bile. Sua presença sugere fortemente uma etiologia maligna periampular, sendo um achado clássico no exame físico de pacientes com adenocarcinoma de pâncreas.

Qual a relação entre o Diabetes Mellitus tipo 2 e o câncer de pâncreas?

O Diabetes Mellitus (DM) tem uma relação bidirecional com o câncer de pâncreas. Enquanto o DM de longa data é um fator de risco moderado para o desenvolvimento da neoplasia, o DM de início recente (diagnosticado há menos de 2-3 anos) em pacientes idosos pode ser uma manifestação paraneoplásica do próprio tumor. Acredita-se que substâncias produzidas pelo tumor ou a destruição do tecido pancreático levem à resistência insulínica ou deficiência de secreção. Portanto, um novo diagnóstico de DM em um paciente sem perfil metabólico típico deve levantar suspeita para câncer de pâncreas.

Quais são as utilidades do marcador CA 19-9 no manejo do câncer de pâncreas?

O CA 19-9 não deve ser utilizado para triagem (screening) na população geral devido à sua baixa especificidade e ao fato de que indivíduos com fenótipo Lewis negativo não o produzem. Suas duas principais utilidades são: 1) Avaliação prognóstica, onde níveis muito elevados pré-operatórios sugerem doença avançada ou metastática oculta; e 2) Monitoramento da resposta ao tratamento e detecção precoce de recidiva tumoral após a cirurgia ou quimioterapia. Uma queda nos níveis após a intervenção indica boa resposta, enquanto uma elevação subsequente sugere retorno da doença.

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