SUS-SP - Sistema Único de Saúde de São Paulo — Prova 2026
Homem de 70 anos, antecedentes de hipertensão arterial e tabagismo de longa data (parou há 15 anos). Antecedente de câncer de próstata tratado há 5 anos com cirurgia e radioterapia. Procurou atendimento devido a alterações do hábito intestinal. Refere que há 4 meses iniciou quadro de constipação alternado com evacuações líquidas em grande quantidade, de odor fétido. Refere ainda que são frequentes episódios de empachamento e dor hipogástrica leve. Observa ainda sensação de urgência evacuatória, mas ao ir ao banheiro, frequentemente não apresenta evacuação, mesmo após esforço. No período, observou perda ponderal de 5 kg, mesmo sem alterações do apetite. Nega sangramento nas fezes, mas refere astenia aos esforços e desânimo crescente. Ao exame: abdome doloroso à palpação do hipogástrio, sem sinais de peritonite e toque retal sem presença de sangue ou fezes. Qual o diagnóstico mais provável desse paciente?
Idoso + Mudança de hábito intestinal + Perda ponderal = Câncer Colorretal até que se prove o contrário.
A alternância entre constipação e diarreia (paradoxal) em idosos sugere lesão estenosante distal, onde fezes líquidas ultrapassam a obstrução parcial.
O câncer colorretal é uma das neoplasias mais comuns e sua incidência aumenta significativamente com a idade. Lesões no cólon esquerdo e reto tendem a ser obstrutivas devido ao menor calibre da alça e à consistência mais sólida das fezes nessa região. O quadro clínico de 'constipação alternada com diarreia' é altamente sugestivo de estenose luminal. A perda de peso não intencional e a astenia (sugerindo anemia ferropriva por sangramento oculto) são sinais de alarme que exigem investigação imediata via colonoscopia. O diagnóstico diferencial inclui doença diverticular e doenças inflamatórias, mas a epidemiologia e os sintomas constitucionais favorecem fortemente a etiologia neoplásica maligna.
A diarreia paradoxal ocorre em lesões estenosantes, geralmente no cólon esquerdo ou reto. A massa tumoral obstrui parcialmente o lúmen, impedindo a passagem de fezes sólidas. O conteúdo fecal proximal sofre fermentação bacteriana e liquefação; esse líquido consegue contornar a obstrução e é expelido, simulando um quadro de diarreia, enquanto o paciente permanece tecnicamente constipado. É um sinal clássico de neoplasia colorretal avançada ou fecaloma obstrutivo.
O tenesmo e a urgência evacuatória são sintomas típicos de lesões localizadas no reto ou na transição retossigmoideana. A presença da massa tumoral estimula os receptores de estiramento da parede retal, enviando sinais ao sistema nervoso de que o reto está cheio. Isso gera o desejo constante de evacuar e o esforço (puxo), mas como a 'massa' é fixa (o tumor), não há eliminação de conteúdo, resultando em evacuação incompleta ou ausente.
Embora a retopatia actínica seja uma complicação possível após radioterapia para câncer de próstata, ela geralmente se manifesta com hematoquezia crônica e anemia. No entanto, diante de perda ponderal de 5 kg, astenia e mudança marcante do hábito intestinal em um paciente de 70 anos e ex-tabagista, a suspeita primária deve ser sempre o adenocarcinoma colorretal. A radioterapia prévia pode até aumentar levemente o risco de segundas neoplasias na região pélvica a longo prazo.
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