Acidose Metabólica com Hiato Aniônico e Gap Osmolar: Diagnóstico

UEPA - Universidade do Estado do Pará - Belém — Prova 2021

Enunciado

Um homem de 51 anos foi internado em hospital após ser encontrado em estado de coma. No exame no departamento de emergência, o escore de Glasgow era 8, pressão arterial= 110/70mmHg, frequência cardíaca= 88 bpm e saturação de oxigênio 97% em ambiente. As pupilas rapidamente reativas à luz. Os pulmões, os sons cardíacos estavam normais, e o abdome era indolor. Os dados laboratoriais foram os seguintes: sódio- 141mEq/l; potássio- 4.2mEq/l; cloreto- 96mEq/L; glicose-108 mg/dL, ureia- 12mg/dL; creatinina–1.1mg/dL; gasometria arterial (pH- 7.23, HCO₃₋ 10 mEq/l, pCO2- 23 mmHg, pO₂- 85mmHg) e osmolalidade- 394 mOsm/kg de H₂O. O exame do sedimento urinário de uma amostra de urina colhida aproximadamente 12 h após a internação revelou cristais de oxalato de cálcio. O distúrbio acidobásico presente nesse paciente é:

Alternativas

  1. A) acidose metabólica com hiato aniônico normal
  2. B) distúrbio acidobásico misto consistindo em acidose metabólica com hiato aniônico normal e alcalose respiratória primária.
  3. C) distúrbio acidobásico misto consistindo em acidose metabólica com hiato aniônico aumentado e alcalose respiratória primária.
  4. D) acidose metabólica com hiato aniônico aumentado com gap osmolar.
  5. E) acidose tubular renal do tipo IV com gap osmolar.

Pérola Clínica

Coma + acidose metabólica com hiato aniônico aumentado + gap osmolar + cristais oxalato cálcio = intoxicação por etilenoglicol.

Resumo-Chave

A presença de acidose metabólica com hiato aniônico aumentado e gap osmolar elevado em um paciente com coma sugere intoxicação por substâncias como etilenoglicol ou metanol. A detecção de cristais de oxalato de cálcio na urina reforça a suspeita de intoxicação por etilenoglicol, que é metabolizado em ácidos tóxicos e oxalato.

Contexto Educacional

A avaliação de distúrbios acidobásicos é uma habilidade essencial na medicina de emergência e terapia intensiva. A acidose metabólica é um achado comum, e sua classificação pelo hiato aniônico (anion gap) é o primeiro passo. Um hiato aniônico aumentado (Na⁺ - (Cl⁻ + HCO₃⁻) > 12 mEq/L) sugere a presença de ânions não medidos, como lactato, cetoácidos ou toxinas. Em casos de acidose metabólica com hiato aniônico aumentado e etiologia não óbvia (como cetoacidose ou acidose lática), o cálculo do gap osmolar torna-se crucial. O gap osmolar (Osmolalidade medida - Osmolalidade calculada) elevado (>10-15 mOsm/kg H₂O) indica a presença de substâncias osmoticamente ativas não detectadas na rotina, como metanol, etilenoglicol ou propilenoglicol. A combinação de coma, acidose metabólica com hiato aniônico aumentado, gap osmolar elevado e cristais de oxalato de cálcio na urina é altamente sugestiva de intoxicação por etilenoglicol, que é metabolizado em ácidos glicólico e oxálico, causando toxicidade renal e neurológica. O manejo desses pacientes exige reconhecimento rápido, suporte hemodinâmico e respiratório, e tratamento específico para a intoxicação, que pode incluir fomepizol ou etanol para inibir o metabolismo dos álcoois tóxicos, e hemodiálise para remover a substância e seus metabólitos. A identificação precoce desses marcadores laboratoriais é vital para um desfecho favorável.

Perguntas Frequentes

Como calcular o hiato aniônico (anion gap)?

O hiato aniônico é calculado por: Na⁺ - (Cl⁻ + HCO₃⁻). Valores normais são geralmente entre 8-12 mEq/L. Um valor aumentado indica a presença de ânions não medidos.

O que significa um gap osmolar elevado?

O gap osmolar é a diferença entre a osmolalidade sérica medida e a calculada (2xNa⁺ + glicose/18 + ureia/2.8). Um gap osmolar > 10-15 mOsm/kg H₂O sugere a presença de substâncias osmoticamente ativas não medidas, como álcoois tóxicos.

Quais as principais causas de acidose metabólica com hiato aniônico aumentado e gap osmolar?

As principais causas incluem intoxicações por metanol, etilenoglicol, propilenoglicol e, em menor grau, cetoacidose alcoólica ou lática grave, onde os osmóis não medidos podem contribuir para o gap.

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