Acidose Metabólica: Diagnóstico de Intoxicação por Etilenoglicol

FMABC - Faculdade de Medicina do ABC Paulista (SP) — Prova 2020

Enunciado

Homem, 57 anos, morador de rua, encaminhado à UTI com rebaixamento do nível de consciência, acidemia e amaurose. Apresenta os seguintes exames: pH: 7,1; HCO3: 12; pCO2: 16; BE: -13; Cloro: 105; Glicemia: 70 mg/dL; Na: 145; Lactato: 5 mmol/L (normal 0,4 a 2); Ânion Gap: 28, corrigido para albumina: 32; ∆ Ânion Gap / ∆ HCO3 = 1; Gap Osmolar: 28 (normal até 15). Assinale a principal hipótese diagnóstica frente ao quadro clínico e gasométrico:

Alternativas

  1. A) Intoxicação exógena por etilenoglicol
  2. B) Cetoacidose diabética
  3. C) Acidose hiperclorêmica por acidose tubular renal
  4. D) Alcalose metabólica por ingestão de soda cáustica

Pérola Clínica

Acidose metabólica AG e OG elevados + amaurose → Intoxicação por metanol/etilenoglicol.

Resumo-Chave

A presença de acidose metabólica com ânion gap elevado e gap osmolar elevado, associada a sintomas neurológicos como rebaixamento do nível de consciência e amaurose, é altamente sugestiva de intoxicação por álcoois tóxicos, como etilenoglicol ou metanol, especialmente em um paciente com histórico de morador de rua.

Contexto Educacional

A acidose metabólica com ânion gap elevado é um distúrbio ácido-base comum e grave, que requer uma investigação rápida para identificar a causa subjacente. As causas podem ser divididas em exógenas (intoxicações) e endógenas (cetoacidose, acidose láctica, insuficiência renal). A presença de um gap osmolar elevado, juntamente com o ânion gap elevado, é um forte indicador de intoxicação por álcoois tóxicos como metanol ou etilenoglicol, que são metabolizados em ácidos orgânicos. O etilenoglicol é um componente de anticongelantes e solventes, e sua ingestão pode ser acidental ou intencional. É metabolizado no fígado em ácidos tóxicos, como o ácido glicólico e o ácido oxálico, que causam a acidose metabólica e danos orgânicos. A amaurose é um sintoma clássico da intoxicação por metanol, mas o etilenoglicol pode causar disfunção neurológica, insuficiência renal aguda (devido à deposição de cristais de oxalato de cálcio nos túbulos renais) e disfunção cardíaca. O lactato pode estar elevado, mas geralmente não justifica todo o ânion gap. O manejo da intoxicação por etilenoglicol é uma emergência médica. Inclui a estabilização do paciente, correção da acidose metabólica com bicarbonato de sódio, e a administração de antídotos como fomepizol ou etanol, que inibem a álcool desidrogenase, enzima responsável pelo metabolismo do etilenoglicol em seus metabólitos tóxicos. A hemodiálise é indicada para remover o álcool e seus metabólitos, corrigir distúrbios eletrolíticos e a acidose grave.

Perguntas Frequentes

Como calcular o ânion gap e o gap osmolar?

O ânion gap (AG) é calculado por Na - (Cl + HCO3). O gap osmolar é calculado pela diferença entre a osmolalidade sérica medida e a osmolalidade sérica calculada (2xNa + Glicemia/18 + Ureia/2.8 + Etanol/4.6). Valores elevados de ambos sugerem a presença de substâncias não medidas.

Quais são os principais diferenciais de acidose metabólica com ânion gap e gap osmolar elevados?

Os principais diferenciais são intoxicações por metanol, etilenoglicol, propilenoglicol e isopropanol. A presença de amaurose é um forte indício de intoxicação por metanol, enquanto a insuficiência renal e cristais de oxalato na urina sugerem etilenoglicol.

Qual a importância da relação ∆Ânion Gap / ∆HCO3?

A relação ∆AG/∆HCO3 ajuda a identificar distúrbios mistos. Um valor próximo de 1 sugere uma acidose metabólica com ânion gap puro. Valores menores que 1 podem indicar uma acidose metabólica com ânion gap associada a uma acidose metabólica sem ânion gap, enquanto valores maiores que 2 podem indicar uma acidose metabólica com ânion gap associada a uma alcalose metabólica.

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