UNICAMP/HC - Hospital de Clínicas da Unicamp - Campinas (SP) — Prova 2025
Menino, 5a, é trazido ao Pronto-Socorro por acidente com jararaca em tornozelo esquerdo há 30 minutos. Apresenta dor e edema em membro inferior esquerdo até região de coxa com equimoses e sangramento no local da picada. A complicação possível para este tipo de acidente é:
Acidente botrópico + Edema tenso e progressivo + Dor desproporcional → Risco de Síndrome Compartimental.
O veneno de serpentes do gênero Bothrops causa intensa reação inflamatória local e proteólise. O edema maciço em compartimentos anatômicos restritos pode levar à síndrome compartimental.
Os acidentes botrópicos representam a grande maioria dos acidentes ofídicos no Brasil. A fisiopatologia é marcada pela tríade: ação proteolítica (inflamação e necrose), ação hemorrágica (lesão endotelial) e ação coagulante (ativação da cascata de coagulação). Em crianças, o volume do membro é menor em relação à quantidade de veneno injetada, o que torna o edema proporcionalmente mais grave e aumenta o risco de complicações compressivas. A síndrome compartimental é uma emergência cirúrgica que, se não tratada, leva à necrose muscular e contratura isquêmica de Volkmann. Outras complicações possíveis incluem insuficiência renal aguda e abscessos secundários, mas a síndrome compartimental é a complicação local clássica associada ao edema maciço descrito.
O veneno das serpentes do gênero Bothrops possui frações proteolíticas, hemorrágicas e nefrotóxicas. As metaloproteinases e hialuronidases causam destruição tecidual, aumento da permeabilidade vascular e hemorragia local. Isso resulta em um edema inflamatório rápido e volumoso. Quando esse edema ocorre dentro de compartimentos musculares delimitados por fáscias inelásticas (como na perna ou antebraço), a pressão intracompartimental sobe drasticamente, superando a pressão de perfusão capilar, o que leva à isquemia muscular e nervosa, caracterizando a síndrome compartimental.
Os sinais clássicos incluem os '6 Ps': Pain (dor desproporcional ao exame e que piora com o estiramento passivo do músculo), Parestesia, Palidez, Paralisia, Pulselessness (ausência de pulso - sinal tardio) e Pressure (compartimento tenso à palpação). No acidente botrópico, a dor e o edema já são esperados, por isso a dor ao estiramento passivo e a tensão lenhosa do compartimento são os sinais mais fidedignos para suspeição clínica antes da perda de pulsos.
O tratamento fundamental é a soroterapia antiofídica específica (Soro Antibotrópico) o mais precocemente possível para neutralizar o veneno circulante. Para o edema, recomenda-se elevação do membro e analgesia. Se a síndrome compartimental for confirmada (preferencialmente por medida da pressão intracompartimental > 30-40 mmHg), a fasciotomia pode ser necessária, mas deve ser feita com cautela devido aos distúrbios de coagulação (consumo de fibrinogênio) frequentes nesses acidentes, exigindo correção prévia da coagulopatia.
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