Acidente Botrópico: Manejo Clínico e Complicações Locais

SUS-BA - Sistema Único de Saúde da Bahia — Prova 2022

Enunciado

Homem, 19 anos de idade, lavrador, dá entrada na emergência após acidente ofídico por jararaca, em pé esquerdo, há 48 horas. Queixa-se de dor intensa no local da picada. Nega comorbidades. Ao exame físico, apresenta-se em regular estado geral, com FR: 22irpm, PA: 140x90mmHg, FC: 100bpm, SatO₂: 95%. Observam-se dois orifícios de inoculação, edema, equimose e lesões bolhosas no local da picada.Em relação ao tratamento geral desse paciente, deve-se

Alternativas

  1. A) realizar torniquete, no atendimento inicial, para impedir a circulação do veneno.
  2. B) iniciar aciclovir, para cobertura de herpes, presente na saliva da serpente.
  3. C) realizar cobertura para anaeróbios, gram positivos e gram negativos, caso ocorra infecção secundária. 
  4. D) evitar opioides, para que os efeitos colaterais não se confundam com o efeito neurotóxico do veneno.

Pérola Clínica

Acidente botrópico → Edema, equimose e risco de infecção secundária por flora polimicrobiana.

Resumo-Chave

O veneno de serpentes do gênero Bothrops possui ações proteolítica, coagulante e hemorrágica, causando dano tecidual local importante que predispõe a infecções secundárias por bactérias da boca da cobra e da pele do paciente.

Contexto Educacional

O acidente botrópico (Jararaca) é o tipo mais comum de acidente ofídico no Brasil. O veneno possui três ações principais: proteolítica (inflamação aguda, edema, necrose), coagulante (consumo de fibrinogênio) e hemorrágica (lesão endotelial). O quadro clínico local é marcado por dor, edema firme, equimose e, em casos mais graves ou tardios, bolhas e necrose. O tratamento definitivo é a soroterapia antibotrópica específica, cuja dose depende da gravidade do quadro. Complicações locais como a infecção secundária são frequentes, especialmente quando o atendimento é tardio (como no caso de 48h apresentado). A cobertura antibiótica deve ser direcionada para a flora polimicrobiana (gram-negativos entéricos, gram-positivos e anaeróbios) caso surjam sinais de celulite ou abscesso. A manutenção da hidratação é vital para prevenir a insuficiência renal aguda, uma complicação sistêmica grave deste envenenamento.

Perguntas Frequentes

Por que a infecção secundária é comum no acidente botrópico?

A infecção secundária ocorre em cerca de 10% dos casos e é favorecida pela ação proteolítica do veneno, que causa necrose tecidual e isquemia local, criando um meio de cultura ideal. As bactérias envolvidas provêm da microbiota oral da serpente (como Morganella morganii, Proteus spp e anaeróbios) e da pele do paciente (Staphylococcus aureus e Streptococcus spp). O tratamento envolve antibioticoterapia de largo espectro se houver sinais clínicos de infecção.

Qual a conduta imediata no local do acidente ofídico?

A conduta imediata deve focar em manter o paciente em repouso, hidratado e elevar o membro picado. É fundamental NÃO realizar torniquetes, incisões, sucção ou aplicar substâncias caseiras no local, pois essas medidas aumentam o risco de necrose e infecção. O paciente deve ser transportado o mais rápido possível para uma unidade de saúde que possua o soro antiofídico específico.

Como é feita a analgesia no acidente por Jararaca?

A dor no acidente botrópico costuma ser intensa devido à ação inflamatória e tecidual do veneno. A analgesia deve ser potente, podendo-se utilizar dipirona, anti-inflamatórios (com cautela pelo risco de sangramento e lesão renal) e, frequentemente, opioides. Diferente do acidente crotálico (cascavel), o veneno botrópico não possui neurotoxicidade central que contraindique o uso de opioides por risco de confusão diagnóstica.

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