SMS João Pessoa - Secretaria Municipal de Saúde de João Pessoa (PB) — Prova 2026
Disfagia é um sintoma que afeta a qualidade de vida, e pode levar a quadro de desnutrição proteico-calórica grave. Sobre este tema, leia o caso clínico abaixo. Paciente masculino, procedente de Minas Gerais, 37 anos, apresenta quadro de disfagia progressiva para sólidos e líquidos há 5 anos, com evolução lenta. Nega tabagismo, perda de peso ou passado de banhos de rio ou açude. Para avaliar o quadro, foram realizados exames complementares, cujos resultados estão exibidos abaixo: • Endoscopia digestiva alta: esófago tortuoso, com pequena estase de conteúdo líquido em sua luz e discreta dificuldade em ultrapassar a cárdia, com mucosa integra em toda sua extensão; • Estômago: lago mucoso bilioso, com discreta hiperemia difusa; • Duodeno: normal. Esofagograma baritado: retardo de esvaziamento do contraste no esôfago distal, com formação de coluna de bário. Presença de afilamento do esôfago distal próximo à região cárdica; • Manometria esofágica: aperistalse do corpo esofágico e relaxamento incompleto do esfíncter esofagiano inferior. Com base no caso clínico e nos resultados exames complementares, assinale a alternativa que contém a melhor associação de hipótese diagnóstica:
Aperistalse + Relaxamento incompleto do EEI na manometria = Acalasia (Padrão-ouro diagnóstico).
A acalasia é um distúrbio motor primário caracterizado pela falha no relaxamento do esfíncter esofágico inferior e ausência de peristalse, resultando em disfagia progressiva para sólidos e líquidos.
A acalasia resulta da degeneração progressiva dos neurônios inibitórios do plexo mioentérico de Auerbach. Essa perda neuronal leva a um desequilíbrio autonômico onde o estímulo excitatório (colinérgico) predomina, impedindo o relaxamento fisiológico do esfíncter esofágico inferior durante a deglutição e abolindo a peristalse coordenada. A classificação de Chicago, utilizada na manometria de alta resolução, categoriza a acalasia em Tipo I (clássica), Tipo II (com compressão pan-esofágica) e Tipo III (espástica), sendo o Tipo II o de melhor resposta ao tratamento. No cenário brasileiro, a etiologia chagásica deve ser sempre considerada em pacientes procedentes de Minas Gerais ou outras áreas endêmicas. O tratamento visa reduzir a pressão do EEI para facilitar o esvaziamento esofágico, podendo ser realizado via endoscópica (dilatação pneumática ou POEM) ou cirúrgica (Miotomia de Heller associada à fundoplicatura para evitar o refluxo iatrogênico).
A manometria esofágica é considerada o padrão-ouro para o diagnóstico de acalasia. Ela demonstra a tríade fisiopatológica clássica: ausência de ondas peristálticas organizadas no corpo esofágico (aperistalse) e relaxamento incompleto ou ausente do esfíncter esofágico inferior (EEI) em resposta à deglutição. Frequentemente, também se observa hipertonia do EEI em repouso (pressão > 45 mmHg). Na manometria de alta resolução, o parâmetro chave é a Pressão Integrada de Relaxamento (IRP) elevada.
Clinicamente e manometricamente, as duas condições são muito semelhantes, pois ambas envolvem a destruição dos plexos mioentéricos. A diferenciação baseia-se principalmente na epidemiologia (procedência de áreas endêmicas para Triatoma), sorologia positiva para Trypanosoma cruzi e a presença de outras manifestações sistêmicas da doença de Chagas, como o megacólon ou a cardiopatia chagásica (bloqueios de ramo, cardiomegalia). O manejo clínico e cirúrgico da disfagia segue princípios similares em ambas as etiologias.
O esofagograma baritado revela achados característicos dependendo do estágio da doença. O sinal mais clássico é o 'bico de pássaro' ou 'cauda de rato', que representa o afilamento distal do esôfago na transição esofagogástrica. Além disso, observa-se dilatação do corpo esofágico (megaesôfago), presença de nível hidroaéreo ou restos alimentares (estase) e um retardo significativo no esvaziamento do contraste para o estômago, mesmo com a gravidade ajudando.
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