HSL/Sírio - Hospital Sírio-Libanês (SP) — Prova 2022
Um paciente de 28 anos, portador de fibrose cística diagnosticada aos 3 anos de idade, não transplantado, vem sendo tratado com enzimas pancreáticas e broncodilatadores. Procura o pronto-socorro com queixa de dor abdominal em flanco esquerdo, febre e obstipação há uma semana. Está em regular estado geral, taquicárdico, febril (38 °C), eupneico, anictérico e um pouco desidratado. Pulso: 100 bpm, rítmico. PA: 120 × 75 mmHg. O abdômen está distendido, sendo doloroso à palpação em flanco esquerdo, onde tem sinais de irritação peritoneal. Os ruídos hidroaéreos estão presentes. O toque retal é normal. Os exames de laboratório evidenciam leucocitose (16.000/mm³) com desvio à esquerda e PCR elevado (150 mg/L). A função renal é normal. Foi submetido a tomografia de abdômen com contraste, que mostrou uma coleção em goteira parietocólica esquerda, com volume de aproximadamente 150 mL, que se estende para a parede abdominal, internamente, e espessamento no cólon sigmoide, sugestivo de doença neoplásica perfurada e bloqueada pela parede abdominal. Não tem distensão significativa nem do cólon nem do intestino delgado. Também não tem evidência de divertículos cólicos. Melhor conduta, neste momento, além de antibioticoterapia intravenosa:
Abscesso intra-abdominal em FC → Drenagem percutânea + ATB é conduta inicial.
Em pacientes com fibrose cística e abscesso intra-abdominal bem localizado, a drenagem percutânea guiada por imagem é a abordagem inicial preferencial, combinada com antibioticoterapia. A cirurgia é reservada para falha da drenagem ou complicações.
A fibrose cística (FC) é uma doença genética autossômica recessiva que afeta principalmente as glândulas exócrinas, levando à produção de secreções espessas e viscosas. Embora seja mais conhecida por suas manifestações pulmonares e pancreáticas, as complicações gastrointestinais são frequentes e podem ser graves, incluindo a síndrome da obstrução intestinal distal (SOID), apendicite, perfurações intestinais e formação de abscessos. A SOID, por exemplo, é o equivalente do íleo meconial em adultos e pode predispor a perfurações. No caso de um abscesso intra-abdominal bem localizado, como o descrito, a abordagem inicial deve ser a menos invasiva possível. A drenagem percutânea guiada por radiologia intervencionista, em conjunto com antibioticoterapia de amplo espectro, é a conduta de escolha. Esta técnica permite a evacuação do pus, aliviando a infecção e minimizando os riscos associados a uma laparotomia, que em pacientes com FC pode ser complicada devido à doença pulmonar subjacente e ao estado nutricional comprometido. É crucial que residentes e profissionais de saúde reconheçam a apresentação atípica de condições em pacientes com doenças crônicas como a FC. A suspeita de uma complicação abdominal em FC deve levar a uma investigação rápida com exames de imagem. A decisão entre drenagem percutânea e cirurgia deve ser individualizada, mas a drenagem percutânea é geralmente preferida para abscessos contidos, reservando a cirurgia para falhas terapêuticas ou situações de emergência não controláveis por métodos menos invasivos.
Os pacientes podem apresentar dor abdominal localizada, febre, leucocitose, PCR elevado, obstipação e sinais de irritação peritoneal. A história de fibrose cística aumenta a suspeita de complicações gastrointestinais.
A drenagem percutânea é menos invasiva que a cirurgia, permitindo a remoção do conteúdo purulento e o controle da infecção com menor morbidade. É eficaz para coleções bem localizadas e bloqueadas, como descrito no caso.
A cirurgia é indicada em casos de falha da drenagem percutânea, abscesso multiloculado ou de difícil acesso percutâneo, peritonite difusa, ou quando há suspeita de patologia subjacente que exija ressecção imediata, como uma perfuração não contida.
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