Santa Casa de Belo Horizonte (MG) — Prova 2026
Homem de 52 anos, diabético tipo 2, apresenta febre baixa e dor em hipocôndrio direito há 10 dias, associadas à inapetência e perda ponderal de 4 kg. Nega icterícia, náuseas ou vômitos. Relata controle glicêmico irregular. Exame físico: temperatura 38,1 °C, dor à palpação profunda em hipocôndrio direito, sem visceromegalias palpáveis. Laboratório: leucócitos 13.000/mm³, PCR 80 mg/L, TGO/TGP discretamente elevadas. Hemoculturas positivas para Klebsiella pneumoniae adquirida na comunidade. Ultrassonografia prévia de abdome sem colelitíase. Qual complicação deve ser ativamente investigada nesse paciente?
DM2 + Febre + Dor em hipocôndrio direito + Klebsiella → Abscesso hepático piogênico.
Em pacientes diabéticos com bacteremia por Klebsiella pneumoniae, a formação de abscessos hepáticos é uma complicação clássica que deve ser investigada, mesmo na ausência de icterícia.
O abscesso hepático piogênico é uma condição grave com mortalidade significativa se não tratada precocemente. Historicamente associado a doenças biliares ou apendicite, houve uma mudança epidemiológica com o surgimento de cepas hipervirulentas de Klebsiella pneumoniae, especialmente em pacientes diabéticos na Ásia e, cada vez mais, no Ocidente. Esta síndrome frequentemente se apresenta de forma insidiosa, com febre e dor abdominal, podendo evoluir com disseminação metastática para olhos (endoftalmite) e sistema nervoso central. O manejo envolve a combinação de antibioticoterapia prolongada e drenagem do abscesso. A drenagem percutânea guiada por imagem (USG ou TC) é preferível à cirúrgica na maioria dos casos devido à menor morbidade. O tratamento empírico deve cobrir gram-negativos entéricos e anaeróbios, sendo ajustado conforme os resultados das culturas do sangue ou do aspirado do abscesso. O controle glicêmico rigoroso é essencial para a recuperação do paciente diabético.
O Diabetes Mellitus, especialmente quando mal controlado, predispõe a infecções por Klebsiella pneumoniae devido a alterações na imunidade celular e na função dos neutrófilos. A Klebsiella possui uma cápsula polissacarídica que facilita a evasão do sistema imune, permitindo a disseminação hematogênica a partir do trato gastrointestinal para o fígado, resultando na formação de abscessos piogênicos, muitas vezes monomicrobianos nestes pacientes.
Os achados são frequentemente inespecíficos, incluindo leucocitose com desvio à esquerda, elevação de marcadores inflamatórios como PCR e VHS, e alterações discretas nas enzimas hepáticas (TGO, TGP e Fosfatase Alcalina). A icterícia é incomum, a menos que haja obstrução biliar concomitante ou abscessos múltiplos/volumosos. A hemocultura é positiva em cerca de 50% dos casos e é fundamental para o direcionamento terapêutico.
A ultrassonografia de abdome é geralmente o exame inicial, apresentando sensibilidade de 80-90%, mostrando massas hipoecoicas ou complexas. No entanto, a Tomografia Computadorizada (TC) com contraste é o padrão-ouro para diagnóstico e planejamento terapêutico, permitindo identificar abscessos menores, avaliar a anatomia para drenagem percutânea e excluir outras patologias intra-abdominais.
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