Abordagem Biopsicossocial na Atenção Primária à Saúde

UNIFESO/HCTCO - Hospital das Clínicas de Teresópolis Costantino Ottaviano (RJ) — Prova 2016

Enunciado

Leia atentamente o relato a seguir:"Antônio é médico. Quando entrou na faculdade. Passou os primeiros anos do curso de Medicina estudando anatomia, fisiologia, histologia e bioquímica, para então aprender como os processos patológicos alteravam os órgãos, os diversos aparelhos, os tecidos e as células. Ao estudar as diferentes doenças, guiou-se pelos tratados médicos, divididos por aparelhos circulatório, respiratório e demais sistemas. Nos dois anos de internato, passou por vários departamentos do Hospital Universitário, em rápidos estágios que não passavam de um mês.Na Unidade Básica de Saúde era raro que conseguisse ver mais de duas vezes o mesmo paciente, pois ia lá um período por semana. Mesmo nos estágios de enfermaria, muitas vezes não pôde acompanhar o tratamento hospitalar de seus pacientes do início ao fim. Sentia-se cansado por causa do grande número de plantões, mas estimulava-se com os estágios de pronto-socorro, em que sentia que colocava em prática tudo aquilo que estudou por tantos anos - especialmente casos graves - e estava finalmente pegando a mão, sabendo pensar em diagnóstico e aplicar o tratamento adequado.Ao final do curso, estava cheio de dúvidas de que especialidade queria seguir. Pensava em Clínica, Cirurgia, Ginecologia, Pediatria, todas o interessavam, mas tinha receio de acabar em um trabalho burocrático e repetitivo. Quando foi fazer a prova de residência, prestou Ginecologia. Não passou. Aquilo foi um misto de frustração e alívio, no fundo ele não estava certo da escolha. Não gostava de dar plantões, foi então trabalhar como médico de família na UBS. Ao iniciar o trabalho na Unidade de Saúde teve um grande impacto. Atendia a todas as pessoas de uma mesma família, e via peculiaridades que se repetiam em todos. Fazia visitas domiciliares e até tomava café ou comia bolos na casa de seus pacientes o que fazia lembrar de sua infância. Certa vez visitou a casa de uma família onde todos os moradores tinham asma, e tendo descoberto uma infiltração na casa, que então foi resolvida, conseguiu suspender o corticoide das crianças, que já começavam a engordar por seu efeito colateral. Além disso atendia algumas vezes Rafael, um jovem emagrecido que revelou estar usando crack. Conseguiu com a assistente social e a agente comunitária de Saúde, levá-lo ao Caps.Havia também uma enormidade de casos frente aos quais se sentia completamente impotente: velhinhos diabéticos com sequelas, sem conseguir controle satisfatório, pois eram analfabetos; hipertensos que não viam sentido em parar de comer mortadela; adolescentes grávidas pela segunda, terceira vez de pais diferentes, além de tantas histórias de estupros, violência doméstica e desemprego. Assim começou a acreditar que não valia a pena se envolver tanto. Compreendia que os governantes não sabiam o que acontece na ponta, "não dão condições de trabalho para nós", pensava. Começou a perder o interesse. Ele, que tinha seus próprios problemas, seus próprios planos, não estava conseguindo resolver os dos outros. Durante algum tempo acreditou: "Vou fazer meu trabalho, e nada mais". No entanto gradativamente mudou sua mentalidade e iniciou diversas atividades em equipe com planejamento adequado e aos poucos transformava a grave situação de sua área adscrita de atuação..."(Retirado de: Ministério da Saúde Caderno de Atenção Básica 34, págs. 12-15)Assinale aquela que não corresponda à compreensão do referido texto:

Alternativas

  1. A) Ao atuarmos enquanto profissionais de saúde, acabamos por interagir com nossas memórias medos e valores.
  2. B) Não é só nosso lado analítico-racional que pensa em termos de abstrações, ciclos naturais de doenças, cadeias fisiológicas e protocolos de tratamento e sim todo nossos sentimentos 
  3. C) Não foi apenas o médico Antônio que apreciava o café e bolo, e sim ele como pessoa
  4. D) Foi graças exclusivamente aos seus conhecimentos adquiridos na faculdade que Antônio decidiu encaminhar Fernando ao Caps, pois percebeu que algo não estava bem com este paciente e que poderia ajudar em um provável uso descontrolado de crack. 
  5. E) Raramente algum cuidado será possível se não procurarmos entender como se dão as causas do sofrimento em cada situação e para cada pessoa, principalmente no que se refere a sua subjetividade.

Pérola Clínica

Cuidado em APS = Técnica + Subjetividade + Contexto Social + Equipe Multiprofissional.

Resumo-Chave

A prática na Atenção Primária exige transcender o modelo biomédico tradicional, integrando a subjetividade do paciente e os determinantes sociais para uma assistência verdadeiramente resolutiva.

Contexto Educacional

O texto reflete a transição paradigmática do modelo flexneriano (hospitalocêntrico, fragmentado e focado na doença) para o modelo da Medicina de Família e Comunidade. Antônio, o personagem, inicialmente frustrado pela falta de 'casos graves' e pela burocracia, redescobre a medicina ao perceber que a cura e o cuidado passam pela compreensão da subjetividade e do território. A questão destaca que a prática médica não é puramente racional-analítica; ela é permeada por afetos, memórias e valores do profissional. A resolutividade na Atenção Primária à Saúde (APS) está intrinsecamente ligada à capacidade do profissional de realizar o diagnóstico comunitário e entender os determinantes sociais. O caso do paciente com asma cuja melhora veio da resolução de uma infiltração doméstica exemplifica perfeitamente a Clínica Ampliada. O erro da alternativa D reside em ignorar que o encaminhamento bem-sucedido ao CAPS foi fruto de uma articulação com a assistente social e o agente comunitário, e não apenas de um saber médico isolado.

Perguntas Frequentes

O que define a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP)?

A Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) é um pilar fundamental da Medicina de Família e Comunidade que busca entender a experiência da doença para o indivíduo, não apenas a patologia em si. Ela envolve quatro componentes principais: explorar a saúde, a doença e a experiência da pessoa com a enfermidade; entender a pessoa como um todo (contexto individual, familiar e social); elaborar um plano conjunto de manejo; e fortalecer a relação médico-paciente. Diferente do modelo biomédico focado no órgão, a ACP valoriza os sentimentos, expectativas e o impacto da condição na vida do paciente, o que aumenta a adesão ao tratamento e a satisfação com o cuidado recebido, sendo essencial para lidar com condições crônicas e psicossociais complexas.

Como os determinantes sociais influenciam o desfecho clínico na APS?

Os determinantes sociais de saúde (DSS) são as condições em que as pessoas nascem, crescem, vivem e trabalham, e têm impacto direto na saúde. Na Atenção Primária, ignorar esses fatores pode levar ao fracasso terapêutico. Por exemplo, um paciente com asma pode não melhorar apenas com medicação se houver mofo em sua residência, ou um diabético pode não controlar a glicemia por ser analfabeto e não compreender a posologia. O reconhecimento dos DSS permite que a equipe de saúde realize intervenções intersetoriais, como acionar a assistência social ou agentes comunitários, transformando a realidade ambiental e social do paciente, o que muitas vezes é mais eficaz do que a prescrição isolada de fármacos de última geração.

Qual a importância do trabalho em equipe multiprofissional na UBS?

O trabalho em equipe multiprofissional é a base da resolutividade na Estratégia Saúde da Família. Como demonstrado no caso clínico, o médico sozinho muitas vezes se sente impotente diante de questões complexas como uso de substâncias, violência doméstica ou vulnerabilidade social. A colaboração com enfermeiros, técnicos, agentes comunitários de saúde (ACS), assistentes sociais e psicólogos (muitas vezes via NASF ou CAPS) permite uma visão 360 graus do paciente. O ACS, por exemplo, traz informações do domicílio que o médico não acessa no consultório. Essa sinergia permite o planejamento de ações coletivas e individuais mais precisas, dividindo a carga de responsabilidade e utilizando as competências específicas de cada categoria para enfrentar os desafios da saúde pública.

Responda esta e mais de 150 mil questões comentadas no MedEvo — a plataforma de residência médica com IA.

Responder questão no MedEvo