Abdome Agudo Perfurativo: Diagnóstico e Sinal de Jobert

Famema/HCFMM - Faculdade de Medicina de Marília (SP) — Prova 2026

Enunciado

Homem, 42 anos, procura pronto-atendimento por dor abdominal súbita há 30 minutos, inicialmente epigástrica e depois difusa, muito intensa, associada a náuseas. Refere uso frequente de AINEs. Ao exame: FC = 124 bpm, PA = 112x73 mmHg, Temp. = 37,6°C, abdome em tábua, sem ruídos hidroaéreos, sinal de Jobert presente e descompressão brusca positiva. A principal hipótese diagnóstica desse paciente é:

Alternativas

  1. A) Pancreatite aguda.
  2. B) Obstrução intestinal por tumor de cólon.
  3. C) Apendicite aguda complicada com abscesso.
  4. D) Perfuração de víscera oca por úlcera péptica.

Pérola Clínica

Dor súbita + Abdome em tábua + Sinal de Jobert = Perfuração de víscera oca (Pneumoperitônio).

Resumo-Chave

O uso crônico de AINEs inibe a síntese de prostaglandinas, fragilizando a mucosa gástrica e predispondo a úlceras que podem perfurar, causando peritonite súbita e pneumoperitônio.

Contexto Educacional

O abdome agudo perfurativo é uma emergência cirúrgica crítica caracterizada pela liberação de conteúdo luminal (ar, bile, suco gástrico, fezes) na cavidade peritoneal. A úlcera péptica perfurada é a causa mais comum de perfuração do trato digestivo superior, frequentemente ligada ao uso de AINEs ou infecção por H. pylori. Clinicamente, manifesta-se por dor abdominal súbita e 'em facada', evoluindo rapidamente para peritonite generalizada com defesa abdominal e rigidez involuntária (abdome em tábua). A presença do sinal de Jobert é um marcador clínico forte de pneumoperitônio. O reconhecimento rápido é vital, pois o atraso cirúrgico aumenta exponencialmente a mortalidade devido à sepse abdominal e falência múltipla de órgãos.

Perguntas Frequentes

O que caracteriza o Sinal de Jobert?

O sinal de Jobert é um achado clássico do exame físico que consiste no desaparecimento da macicez hepática à percussão, sendo substituída por timpanismo. Esse fenômeno ocorre devido à presença de ar livre na cavidade peritoneal (pneumoperitônio), que se interpõe entre o fígado e a parede abdominal anterior quando o paciente está em decúbito dorsal. É um sinal patognomônico de perfuração de víscera oca, mais comumente associado à úlcera péptica perfurada ou perfurações colônicas. Sua detecção deve levar à investigação imediata com exames de imagem, como a radiografia de tórax em pé ou de abdome em cúpulas, para confirmar a presença de gás extraluminal.

Por que o uso de AINEs é um fator de risco importante?

Os anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) inibem as enzimas ciclooxigenases (COX-1 e COX-2), responsáveis pela síntese de prostaglandinas. No estômago, as prostaglandinas desempenham um papel citoprotetor essencial, estimulando a secreção de muco e bicarbonato e mantendo o fluxo sanguíneo mucosal. A inibição crônica ou aguda intensa dessas substâncias reduz as defesas da mucosa contra o ácido gástrico e a pepsina, levando à formação de úlceras. Essas úlceras podem erodir todas as camadas da parede gástrica ou duodenal, resultando em perfuração livre para a cavidade peritoneal, desencadeando um quadro de abdome agudo perfurativo.

Qual a conduta inicial no abdome agudo perfurativo?

A conduta inicial foca na estabilização hemodinâmica e preparação para intervenção cirúrgica de urgência. O paciente deve ser mantido em jejum absoluto, receber hidratação venosa vigorosa com cristaloides e antibioticoterapia de amplo espectro para cobrir germes gram-negativos e anaeróbios, dada a contaminação peritoneal. A descompressão gástrica com sonda nasogástrica é recomendada para reduzir o extravasamento de conteúdo para a cavidade. O diagnóstico é confirmado por exames de imagem que demonstram pneumoperitônio. O tratamento definitivo é cirúrgico, geralmente envolvendo a rafia da perfuração (com ou sem omentoplastia) ou ressecções segmentares.

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